Meninas e Mulheres na Ciência: a representatividade que vai além da questão numérica

Ciência é substantivo feminino. No entanto a realidade linguística do português não reflete a realidade vivenciada pelos(as) seus(as) falantes brasileiros(as). Segundo dados divulgados pela Fiocruz, ainda que correspondam a mais da metade da população do país, as mulheres representam apenas 40,3% da comunidade científica do Brasil. Em áreas de Exatas, como a química, a engenharia e a matemática, a desigualdade é ainda maior: a quantidade de mulheres das chamadas áreas de STEM nas universidades (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é de apenas 35% em todo o mundo (ONU Mulheres). 

“A presença de mulheres na pesquisa e no ensino da Química, assim como em outras áreas, vai além da representatividade numérica. Ela impacta diretamente as formas de produzir, ensinar e comunicar conhecimento. Assim, ocupar a pesquisa e o ensino é também um ato político, de resistência e de reescrita da história da ciência. É afirmar que esses espaços nos pertencem”, defende Katy Amorim, acadêmica do curso de Química (Licenciatura) na Universidade Federal do Pará (UFPA) – Campus Ananindeua.

O interesse de Katy pela Química não surgiu de forma imediata. A estudante conta que foi se encantando pelo curso ao longo da graduação. “Venho de uma realidade marcada por desigualdades sociais e, para mim, o acesso à universidade representou mais do que uma escolha profissional, constituindo-se como uma possibilidade concreta de transformação de vida por meio da educação”, conta a estudante de apenas 21 anos. Para ela, ter tido contato com mais referências femininas na área, como outras cientistas e professoras, tem sido fundamental para este encanto. 

Trajetórias femininas – Partindo de pressuposto de que o conhecimento científico nunca é neutro ou isolado, mas construído em contextos históricos e sociais, Katy Amorim e sua orientadora, Janes Kened, atuaram no desenvolvimento de livretos didáticos autorais que articulam ciência, história e cultura, com foco na valorização de trajetórias científicas femininas.

“Os livretos foram concebidos como recursos pedagógicos alternativos, com o objetivo de problematizar a narrativa eurocentrada e masculina ainda predominante nos livros didáticos. Para além da transmissão de conteúdos, os materiais buscam promover reflexão, identificação e diálogo, atuando como instrumentos de mediação pedagógica que aproximam os estudantes da ciência, com uma perspectiva mais humana, crítica e contextualizada”, explica Katy Amorim. 

O objetivo do projeto era simples: promover, por meio de jogos, experimentos e livretos, reflexões sobre questões sociais relevantes, de forma interdisciplinar e/ou contextualizada, com enfoque na valorização da mulher no meio científico. Segundo Katy, até o momento, entre os materiais produzidos, destaca-se o livreto Marie Curie: a mãe da radioatividade, que aborda a trajetória científica de Marie Curie e os impactos do seu trabalho na radioatividade e na sociedade e conta com outro diferencial: ele foi escrito na forma de um “cordel científico”. 

“Ao utilizar o cordel, uma expressão da cultura popular brasileira, buscamos tensionar essa lógica e afirmar que a ciência também pode e deve ser comunicada com linguagens plurais”, conta Katy Amorim. “Além disso, o cordel permite ressignificar a figura de Marie Curie, retirando-a do lugar simbólico da excepcionalidade solitária, apresentando-a como uma mulher que enfrentou barreiras de gênero, classe e pertencimento para produzir ciência”, explica.

Excepcionalidade solitária – A construção da excepcionalidade solitária citada por Katy acontece quando a imagem de uma mulher “excepcional” é evocada para sugerir que o sucesso na ciência depende unicamente de um brilhantismo individual extraordinário. Hoje, entende-se que ênfases exageradas à excepcionalidade dessas cientistas também são problemáticas, pois reforçam a ideia de que apenas mulheres com qualidades sobre-humanas podem ter sucesso.

“Foi na sala de aula que compreendi o potencial do ensino como ferramenta de mudança na realidade do outro, assim como foi na minha própria trajetória. Ao reconhecer em minhas professoras referências de transformação, decidi seguir a carreira acadêmica, entendendo a Química não apenas como uma área do conhecimento, mas também como um espaço de pertencimento, sentido e compromisso social”, narra a estudante.

Assim como a história de Ayla, outras trajetórias de cientistas da Amazônia também serão contadas na Série Meninas e Mulheres na Ciência, que comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, exaltando a importância da mulher nas diferentes áreas de conhecimento. Acompanhe!

Leia mais:

TEXTO: Gabriela Cardoso - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Alexandre de Moraes - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

Relação com os ODS da ONU:

ODS 4 - Educação de QualidadeODS 5 - Igualdade de Gênero

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