Meninas e Mulheres na Ciência: presença, resistência e produção de conhecimento

Em mais uma matéria da série especial para o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a UFPA celebra um marco significativo alcançado pelo Brasil: o país ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de maior participação feminina na ciência, mostrando um crescimento de 29% entre 2002 e 2022, segundo dados do Relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, lançado em março de 2024 pela Elsevier-Bori. 

Mas, apesar de esses dados demonstrarem que as mulheres têm conquistado destaque e espaço no âmbito científico, a desigualdade ainda é evidente. E, quando questões de raça e gênero são combinadas, essa desigualdade acentua-se ainda mais. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 15% das mulheres negras no Brasil atingem o ensino superior completo, o que expõe uma desigualdade sistêmica que continua transpassando a trajetória de diversas cientistas.

Fotiorafia posada de quatro pessoas, sendo dois homens e duas mulheres. Um dos homens segura uma placa de homenagem.

“A participação na comunidade científica exige requisitos de produtividade e parâmetros que dificultam o reconhecimento de mulheres negras como  pesquisadoras. Penso que ainda vivemos sob o efeito ‘Matilda’, termo cunhado em homenagem à sufragista norte-americana Matilda, que denunciou o apagamento histórico das mulheres na ciência. Esse fenômeno se expressa em situações nas quais pesquisadores homens são premiados e aprovados em editais de fomento, enquanto cientistas mulheres negras, tão capazes e igualmente qualificadas, ainda não recebem o devido reconhecimento por suas contribuições científicas e permanecem invisibilizadas”, aponta a professora Solange Silva, que é vice-coordenadora do Campus Universitário de Breves, localizado no Arquipélago do Marajó, e coordenadora do Projeto de Pesquisa Política de Igualdade Étnico-Racial e Educação Antirracista, análise da Implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 nos Planos Municipais de Educação e Projetos Político-Pedagógicos das Escolas do Arquipélago Marajoara. 

A educação criou a cientista e a cientista cria a educação – Formada em Pedagogia, em 2003, pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Solange Silva é doutora em Educação e atua como gestora e professora no Campus Breves. Sua trajetória acadêmica e profissional está voltada ao estudo e à atuação em Políticas Públicas Educacionais, Planejamento Educacional, Didática e Formação de Professores, com ênfase na formação inicial e continuada de professores alfabetizadores. Desenvolve pesquisa sobre a Política de Igualdade Étnico-Racial e Educação Antirracista, além de coordenar projetos de extensão em escola pública voltados para alfabetização, letramento e literatura infantil antirracista nos anos iniciais.

Em seu trabalho, a educação é a porta de entrada para o mundo da ciência e construí-la com quebras de barreiras discriminatórias é decisiva. Seu estudo articula a análise da legislação educacional brasileira, especialmente as Leis n. 10.639/2003 e n 11.645/2008, com pesquisas e práticas pedagógicas inclusivas, e busca compreender como a literatura e os materiais didáticos podem fortalecer a implementação da política de igualdade racial, contribuindo para a formação docente, para a produção de recursos pedagógicos antirracistas e para o desenvolvimento de indicadores que orientem políticas públicas educacionais. 

“Hoje, meus projetos de alfabetização, letramento e literatura infantil antirracista dialogam diretamente com a minha trajetória pessoal e coletiva. São projetos que transformam dor em luta, silêncio em voz e resistência em ciência”, conta a professora, ao apontar diferentes horizontes para uma educação com bases antirracistas, promovendo atividades de alfabetização e contação de histórias com livros de autoras(es) negras(os) que abordam inclusão, ancestralidade e autoestima negra para turmas do 1° ao 5° ano do fundamental, de escolas dos municípios de Breves e Gurupá, além de comunidades quilombolas.

Nesta perspectiva, o projeto constrói degraus no âmbito científico e escolar que jamais serão desfeitos. Além de proporcionar alfabetização e letramento racial, a ação também amplia novas práticas de formação de professores voltada para a educação das relações étnico-raciais. E, para a professora Solange, que é uma mulher negra, essa prática pedagógica antirracista não se distingue da luta pelo acesso de mais mulheres negras na ciência: “Ao formar crianças em ambientes livres de discriminação, também fortalecemos as mulheres negras que desejam ocupar o espaço científico, demonstrando que nosso conhecimento é legítimo, necessário e transformador”, pontua.

Representante da importância da mulher negra na produção de ciência e na formação de novas cientistas, Solange Silva afirma: “Nos últimos anos, repito diariamente: ‘Eu pertenço a esse lugar. Não importa quais sejam as dificuldades, continuarei lutando para que outras mulheres negras também tenham o direito de disputar esse espaço e sejam respeitadas”.

Leia mais:

TEXTO: Eva Sarmento - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Arquivo pessoal

Relação com os ODS da ONU:

ODS 4 - Educação de QualidadeODS 5 - Igualdade de Gênero

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