“La Serva Padrona” ganha releitura paraense no palco do Theatro da Paz

Uma combinação criativa e bem-humorada entre a tradição da ópera italiana do século XVIII e o imaginário cultural belenense. É o que promete a montagem operística “La Serva Padrona – Uma releitura paraense”, que será apresentada nos dias 30 e 31 de maio, às 20h, no Theatro da Paz. A regência é da professora da Escola de Música da UFPA, maestra Cibelle J. Donza.

Nesse encontro inusitado, belle époque amazônica, “raio que o parta”, guitarrada e até aparelhagem são trazidas à ópera bufa de Giovanni Battista Pergolesi, com libreto de Gennaro Antonio Federico. Assim, música, figurino e encenação adquirem cores, sotaques e referências da cultura local. O espetáculo integra a programação do Festival de Ópera do Theatro da Paz, que segue com outras montagens, recitais e concertos líricos até o final do mês de junho.

O sentido de adaptação está no centro da proposta artística. As incursões textuais e musicais, criadas especialmente para a montagem, não alteram a partitura original de Pergolesi. Dessa forma, a ópera passa a dialogar com o público a partir de uma atmosfera inspirada em Belém, transformando a casa dos personagens em um espaço de reconhecimento, graça e identificação. Para Cibelle J. Donza, isto partiu de uma busca no sentido de tornar a obra mais significativa para o público atual e local, sem mudar a essência da composição.

“Eu fiquei pensando de que forma se poderia criar essa conexão. O objetivo principal da ópera era fazer rir, era uma comédia. Assim, não estamos fugindo do espírito da obra original se a gente atualiza as piadas pro contexto onde ela vai ser apresentada agora. Estamos sendo fiéis ao espírito original da obra”, diz a maestra, que também assina a direção artística e musical do espetáculo.

Um dos destaques da montagem é a criação de uma música de abertura original, composta pela própria maestra. A escolha parte de uma particularidade da obra: Pergolesi não compôs uma abertura instrumental para “La Serva Padrona”, como manda a tradição, pois a ópera foi originalmente concebida para ser um intermezzo. Ou seja, foi feita para ser apresentada entre os atos de uma ópera “séria”. No entanto, a história divertida que envolve astúcia e jogos de poder entre Uberto, Serpina e Vesponeantes alcançou tamanha notoriedade internacional que se tornou uma obra independente. Desse modo, a montagem feita em Belém ganha uma introdução musical própria, pensada para preparar o público para o universo da releitura amazônica.

Outro diferencial é a formação da orquestra, que será essencialmente feminina, reunindo musicistas da Orquestra Filarmônica da Amazônia (FILMA) e da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (OSTP). A proposta dialoga diretamente com a própria leitura da personagem Serpina, ressaltando temas como protagonismo feminino, inteligência, autonomia e disputa simbólica por espaço dentro das estruturas de poder. O papel desafiador será interpretado pela soprano Kézia Andrade. “Cantar linhas de coloraturas rápidas e recitativos dinâmicos exige imenso controle de fôlego e apoio respiratório, especialmente porque o corpo precisa estar em constante movimento cênico. Além disso, o desafio dramático foi construir uma Serpina que domine a cena através do charme, do carisma e da astúcia, fugindo completamente do clichê de uma criada puramente estridente e caricata”, afirma a cantora, atuante desde 2011 no maior festival lírico do Estado.

Para o cenógrafo San Rodrigues, a inspiração criativa veio da profusão de influências que caracteriza a arquitetura belenense, onde diversos estilos se cruzaram a partir da necessidade de projetar uma cidade moderna, tomando como referência as metrópoles europeias. O projeto, inteiramente manual, foi montado em 12 dias e muito diz sobre o processo de adaptação cultural que ocorreu na região. “Em questões culturais, eu acho que o cenário mostra muito a inventividade do amazônida. Essa presunção de fazer algo grandioso através da mão humana, da simplicidade da marcenaria, tem muita relação com a nossa cultura. A gente adapta o belo, que vem dos julgamentos da metrópole, às nossas características regionais, e acaba ficando feliz com o resultado”, define o artista.

Entre o idioma italiano e palavreados regionais típicos, sonoridades que abarcam o contraponto do séc. XVIII assim como o lundu e o brega, “La Serva Padrona” traz um forte potencial de fazer com que o público se divirta e reconheça, assim como de incentivar novos apreciadores para um gênero que faz parte da própria história cultural da cidade. Além disso, há surpresas que só serão vistas e ouvidas pelos que comparecerem ao Da Paz nos dias 30 e 31. A produção aposta na conexão entre patrimônio, inovação e pertencimento para marcar a 25˚ edição de um dos eventos líricos mais prestigiados do país.

A realização envolve parcerias e apoios de instituições e grupos culturais locais, com fomento da Política Nacional Aldir Blanc — PNAB, Secretaria de Cultura do Estado do Pará, Governo do Pará e PROEX/UFPA (Prêmio Proex). Realização da Escola de Música da UFPA, MultiArte Produções e MINC/Aldir Blanc, e parceria com o Festival de Ópera do Theatro da Paz. Os ingressos estão disponíveis pelo site ticketfacil.com.br.

Serviço

Espetáculo: La Serva Padrona – Uma releitura paraense no XXV Festival de Ópera do Theatro da Paz
Data: 30 e 31 de maio
Horário: 20h
Local: Theatro da Paz — Belém/PA
Ingressos: ticketfacil.com.br
Obra: La Serva Padrona, de G. B. Pergolesi

TEXTO: Isac Rodrigues de Almeida - Emufpa

FOTOS: Alexandre de Moraes - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA e Divulgação

Leia também

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email
Print
Acessar o conteúdo