O XII Encontro do Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (Regional Norte) foi marcado por grandes homenagens. A edição deste ano, realizada entre os dias 1º e 3 de junho no Centro de Eventos Benedito Nunes, na Universidade Federal do Pará (PA), teve como objetivo debater políticas públicas, desigualdades e direitos das crianças na Amazônia. Entre os ilustres presentes, destaca-se o pedagogo, sacerdote e defensor de direitos humanos Padre Júlio Lancellotti.
O evento foi organizado pelo Fórum de Educação Infantil do Pará (FEIPA) e contou com um grande público, incluindo representantes de instituições, gestores, vereadores, pesquisadores, pessoas que apoiam a causa das infâncias e, especialmente, professoras e professores da educação infantil, dos vários territórios e municípios do estado do Pará e da região Norte.
A conferência intitulada “As Desigualdades Sociais e as Infâncias” foi um marco do primeiro dia do evento e teve como principal palestrante o pedagogo padre Júlio Lancellotti. Um dos fundadores da Pastoral da Criança, Padré Júlio colaborou na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ele também é conhecido por sua atuação na Casa Vida, instituição de São Paulo (SP) que acolhe crianças e adolescentes portadoras do vírus HIV, assim como outras patologias e deficiências. Hoje, Lancellotti coordena ações da Pastoral do Povo de Rua e se tornou uma das principais vozes do país no enfrentamento à fome, à desigualdade e na defesa à população em situação de rua e às pessoas em vulnerabilidade social.
A participação do defensor dos direitos humanos no XII Encontro do Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (Regional Norte) foi parte de uma extensa agenda na cidade de Belém (PA) durante os primeiros dias do mês de junho. Logo que entrou no Centro de Eventos Benedito Nunes, Lancellotti foi recepcionado com fortes aplausos.

“A desigualdade mata a infância, porque ela sonega da criança muitas possibilidades de brincar, de ter acesso a vários benefícios sociais. A desigualdade pode até fazer com que as crianças encontrem brincadeiras que sejam mais populares, mas ao mesmo tempo faz saber o que é o tiroteio, o que é a morte, o que é a privação, a fome, a tristeza”, ensinou Padre Júlio durante a conferência. “Por isso, um professor, uma professora de educação infantil é um descobridor de sonhos e de esperanças, mas também é um curador de feridas e de marcas. As crianças pequeninas, de educação infantil, carregam fantasias, marcas, sonhos e frustração. Então, descobrir o mundo infantil traz alegria, reflexão, mas também consciência de como se fabrica a dor, o abandono.”
Lancellotti também aproveitou o seu espaço de fala para reiterar o papel dos educadores infantis e apontar alguns caminhos para atenuar as desigualdades ao longo dessas primeiras etapas da juventude.
“A criança pequenina é uma esponja. Não que ela seja uma tábula rasa ou uma folha em branco, pois ela já traz várias características e traços, mas ao mesmo tempo ela absorve tudo o que ouve. E os educadores da educação infantil nem sempre são valorizados como deveriam, é como se essa fase da vida não fosse importante, já que ela não produz para esse nosso sistema meritocrático, individualista e competitivo”, disse Padre Júlio. “É preciso trabalhar uma educação mais solidária, mais comunitária, uma educação que garanta à criança o acesso a tudo o que ela tem direito, à possibilidade de cantar, de dançar, de sorrir. E nós também temos que aprender a enxugar as lágrimas delas e com elas sorrir e cantar.”

Ao final da palestra, o sacerdote foi homenageado com um certificado de Cidadão de Belém emitido pela Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA). “É uma honra [ser escolhido como cidadão de Belém]. Eu já moro no bairro do Belém, em São Paulo, e agora sou também cidadão de Belém [a cidade]”, brincou Padre Júlio. Ao ser indagado sobre as políticas públicas para infância na Amazônia e sobre o papel das universidades, ele ressaltou a importância de considerar as diversidades.
“Há muitas diferenças, muitas diversidades e muitas desigualdades no Brasil. Todas têm que ser contempladas dentro da sua especificidade. Então as infâncias que estão num estado como o Pará merecem ser todas ouvidas, todas contempladas na sua especificidade regional e cultural. Um estado não pode ter uma política pública única, ele deve ter diferentes ações para diferentes necessidades. É preciso ter a sensibilidade de perceber o diverso e perceber que o diverso exige respostas diversas também”, enfatizou.
Homenagem à professora emérita – A professora Ana Maria Tancredi Carvalho, consagrada professora emérita pela Universidade, também foi homenageada durante a conferência. A docente iniciou sua carreira na Universidade em 1979 e é amplamente reconhecida por sua forte atuação em prol do direito à educação no estado do Pará. A homenagem congregou familiares e amigos, reunidos para celebrar o aniversário da docente e a trajetória de luta pela educação na Amazônia, em especial pela educação infantil e de todas as infâncias.
Realizado também em comemoração aos 32 anos do FEIPA, o XII Encontro do Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (Regional Norte) buscou refletir sobre a realidade cultural e social das infâncias na Amazônia, considerando os impactos da pandemia, o uso das tecnologias, a justiça climática e os desafios da inclusão social, na perspectiva de práticas educativas mais humanizadas e equitativas. Espera-se que as discussões e as trocas realizadas resultem na construção de uma agenda permanente em defesa dos direitos das crianças, na forma da Carta de Belém, documento que reúne princípios e encaminhamentos construídos coletivamente durante o encontro.
