O ecólogo Mauro Brum, brasileiro que construiu parte de sua carreira em universidades dos Estados Unidos e do Canadá, acaba de se incorporar ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFPA (PPGECO). O estudioso investigará como as árvores da floresta respondem fisiologicamente à seca, buscando indicadores capazes de antecipar sinais de estresse antes que se tornem irreversíveis.
O retorno ao Brasil foi possível graças ao edital do programa Conhecimento Brasil, lançado pelo governo federal no fim de 2024. A iniciativa busca reverter o movimento de saída de cientistas qualificados do país ao financiar projetos de pesquisa que atraiam talentos brasileiros de volta ao sistema nacional de ciência e tecnologia.
O projeto trazido pelo pesquisador para a UFPA, intitulado Aplicando Modelagem de Histerese para Decifrar Limiares Fisiológicos de Espécies Arbóreas no Ecossistema Amazônico, propõe uma nova forma de interpretar o estresse hídrico das árvores. A inovação está no uso da histerese, fenômeno em que a resposta de um sistema depende não só do estado atual, mas do histórico de pressões a que foi submetido. Aplicado às plantas, o conceito permite rastrear o fluxo de água, a umidade do tronco e as variações no diâmetro das árvores ao longo do dia, dados que, juntos, podem revelar sinais precoces de perda de vitalidade.
A analogia com a medicina é precisa: trata-se de uma espirometria para árvores. Assim como a análise dos ciclos respiratórios humanos permite detectar asma ou enfisema antes de manifestações graves, a abordagem de Brum pretende identificar vulnerabilidades nas árvores amazônicas antes que os danos se tornem visíveis. Os fundamentos teóricos do projeto foram publicados na revista Plant, Cell and Environment, resultado de pesquisas realizadas na University of New Hampshire (EUA) e na Université du Québec à Chicoutimi (Canadá).

A pesquisa na UFPA se organiza em três eixos. No científico, a equipe analisará como árvores de terra firme (com sistemas radiculares profundos ou superficiais) se comportam durante a seca sazonal, e como as plantas de várzea estuarina da região de Belém reagem ao pulso diário das marés. No eixo tecnológico, o grupo desenvolverá os próprios instrumentos de medição: sensores de fluxo de seiva, sensores de umidade do tronco e dendrômetros de ponto, todos de baixo custo, voltados a suprir uma lacuna importante em ecofisiologia vegetal tropical. No eixo formativo, serão oferecidas disciplinas e cursos abertos a estudantes de pós-graduação da UFPA e de outras instituições.
O trabalho é desenvolvido em parceria com a professora Grazielle Sales Teodoro, do PPGECO, e ancora-se em uma rede interinstitucional que inclui o Instituto Federal do Pará (IFPA), a University of New Hampshire (EUA), a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e a EMBRAPA-Santarém. A iniciativa, chamada EcoFitoTec, tem como meta consolidar na UFPA um polo de desenvolvimento de hardware científico para estudos ecológicos em florestas tropicais.