Ação conjunta promove saúde pública no arquipélago do Marajó

Integrar conhecimento acadêmico à realidade da saúde pública regional. Foi com esse objetivo que uma ação conjunta realizada pelo Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (ICB/UFPA) e pela Secretaria de Saúde Pública de Melgaço levou acesso a diagnósticos e tratamentos ao arquipélago do Marajó. As equipes de profissionais e voluntários navegaram pelas baías do Guampa, Capim e Marapatá, chegando à baía de Melgaço. O objetivo foi de ampliar o acesso a serviços essenciais em comunidades marcadas por grandes distâncias, dificuldades de deslocamento e limitações na oferta regular de assistência

Foram realizadas ações de territorialização, mapeando vulnerabilidades sociais, ambientais, educacionais e de saúde, aproximando a gestão municipal das reais necessidades para o direcionamento da assistência integral às populações com maior vulnerabilidade, especialmente as populações do campo, da floresta e das águas. Para isso, a equipe atuou de forma itinerante e articulada com os serviços locais, aproximando as pesquisas realizadas na UFPA e atividades do Sistema Único de Saúde das demandas concretas do território.

Um dos eixos centrais da iniciativa é o Projeto “Busca ativa de casos de hanseníase e de tuberculose”, coordenado pelo professor Pablo Diego do Carmo Pinto, do Instituto de Ciências Médicas (ICM/UFPA). Em vez de aguardar que pessoas com sintomas procurem uma Unidade de Saúde, o professor desenvolve ações de busca ativa por meio de visitas domiciliares orientadas por análise de epidemiologia espacial. Por meio do projeto, além dos atendimentos à população, são realizados treinamentos em serviço para os profissionais da Atenção Primária do município. A estratégia favorece o diagnóstico oportuno, o início imediato do tratamento e a interrupção das cadeias de transmissão, contribuindo, ainda, na prevenção de incapacidades físicas associadas à hanseníase e complicações provocadas pela tuberculose, doenças relacionadas a condições de pobreza, à moradia inadequada e ao acesso restrito à saúde.

Também estão envolvidos na ação atendimentos vinculados ao Projeto “GenomaSUS”, coordenado pela professora Andrea Kely Campos Ribeiro dos Santos (ICB/UFPA), que tem como finalidade ampliar o conhecimento sobre a diversidade genética da população brasileira e incorporar esses dados ao desenvolvimento da saúde de precisão no Sistema Único de Saúde. 

Para a população marajoara, a iniciativa pode revelar variantes genéticas e características próprias que influenciam a predisposição a doenças, a resposta a medicamentos e a eficácia de diferentes tratamentos. Desta forma, a inclusão de moradores do Marajó neste levantamento contribui para que diagnósticos, estratégias de prevenção e condutas terapêuticas sejam planejados com base nas particularidades da população amazônica, fortalecendo a capacidade do SUS para oferecer cuidados mais individualizados e equitativos. 

Já no âmbito do Projeto “Amazônia +10”, coordenado pelo professor Sidney Santos (ICB/UFPA), o destaque ficou para a avaliação da qualidade microbiológica das águas da bacia do Marajó, que busca identificar a presença de microrganismos indicadores de contaminação e compreender os riscos associados ao consumo e ao uso cotidiano da água pelas comunidades locais. A pesquisa envolve a coleta e a análise de amostras em diferentes pontos do território, gerando informações sobre as condições sanitárias das fontes utilizadas para beber, cozinhar, realizar a higiene e desenvolver outras atividades. 

Esteve envolvido na ação, ainda, o Projeto “Inteligência territorial para o planejamento estratégico em saúde”, coordenado pelo professor Moises Silva, que busca ampliar a capacidade de investigação e qualificação do cuidado, além de realizar atividades de territorialização. Esse trabalho permite conhecer onde, como e quais são as condições de vida das famílias marajoaras, identificar fatores de risco e organizar respostas mais adequadas à realidade local. 

O projeto integra geoprocessamento e análise espacial com dados socioeconômicos, ambientais, de acesso aos sistemas de saúde, educação e urbanismo, bem como dados laboratoriais, além das informações qualificadas da atenção primária e vigilância. Essa integração permite mapear determinantes sociais e perfis epidemiológicos desagregados, identificar microterritórios de maior risco, para orientar intervenções, otimizar a alocação de recursos e mensurar impactos. 

Além de produzirem conhecimento científico, todas as ações realizadas aproximam pesquisadores e moradores, valorizam a realidade de cada comunidade e contribuem para a construção conjunta de soluções sustentáveis. A iniciativa fomenta a proteção da saúde, a segurança hídrica e o planejamento de políticas públicas adequadas às questões sociais e ambientais do Marajó.

Especificidades da região – A integração entre diferentes projetos é especialmente importante em municípios como Melgaço, onde as grandes distâncias, a dependência do transporte fluvial, as condições climáticas, a dispersão das comunidades e a necessidade de deslocar equipes, insumos e equipamentos tornam a logística mais complexa e elevam o chamado “custo Amazônia”. 

“Ao compartilhar planejamento, transporte, estrutura, profissionais e informações, as iniciativas reduzem a duplicação de esforços, otimizam os recursos disponíveis e ampliam a quantidade e a qualidade dos atendimentos realizados em uma mesma expedição. Essa articulação também nos permite abordar, de forma conjunta, problemas clínicos, epidemiológicos, genéticos, territoriais e ambientais, oferecendo respostas mais completas às necessidades da população marajoara”, pontua o professor Moises.

A atuação contou, ainda, com a participação da Residência Multiprofissional em Biomedicina do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB) para fortalecer tanto a assistência quanto a formação em serviços: “os residentes colaboram com atividades laboratoriais, ações de campo, coleta e processamento de amostras e educação em saúde, ao mesmo tempo em que desenvolvem competências para atuar em territórios amazônicos de alta vulnerabilidade”, conta Moises Silva. 

Esta integração entre universidade, hospital universitário, serviços municipais e projetos de pesquisa potencializa os resultados, qualifica profissionais e contribui para que as ações tenham continuidade, sustentabilidade e maior impacto sobre a saúde da população de Melgaço.

Fotografia posada de um grupo de pessoas. A maioria do grupo usa coleta com o brasão da UFPA bordado.

Resultados promissores – A ação atendeu a 89 pessoas pelo Projeto GenomaSUS, com avaliações clínicas e epidemiológicas na busca ativa de hanseníase, tuberculose e outros agravos, produzindo mais de 30 diagnósticos de diferentes condições de saúde para encaminhamento oportuno, início do cuidado e qualificação da vigilância local. A territorialização alcançou mais de 330 domicílios, ampliando o conhecimento sobre condições de vida, determinantes socioambientais, fatores de risco e necessidades assistenciais dos microterritórios. 

Além do impacto direto sobre a população, a iniciativa fortaleceu a capacidade instalada do município por meio da capacitação de mais de 20 profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), com treinamento em serviço voltado à identificação de casos suspeitos, organização dos fluxos de atendimento, registro qualificado, acompanhamento clínico e articulação com a vigilância em saúde.

“Esses resultados demonstram que a ação se firma não como uma expedição assistencial, mas  sim como um projeto que integra o tripé de ensino-pesquisa-extensão e integração com os serviços de saúde local, por estimular a estruturação de competências locais, ampliação da resolutividade da APS e produção de evidências estratégicas para orientar intervenções contínuas, integradas e territorialmente adequadas à realidade de Melgaço”, comemora Moises Silva.

Em conjunto, os projetos ampliam a resolutividade do SUS, a capacidade de planejamento municipal e a continuidade de ações ajustadas às especificidades sociais, ambientais e geográficas do Marajó. Espera-se, ainda, identificar microterritórios prioritários, orientar a alocação eficiente de recursos, fortalecer as competências das equipes locais e produzir evidências científicas que apoiem decisões intersetoriais das áreas de saúde, educação e infraestrutura.

Os próximos passos da ação incluem a continuidade da busca ativa para identificação de novos casos, o acompanhamento e o tratamento das pessoas diagnosticadas, a ampliação da territorialização para outras áreas do município e a integração dos dados clínicos, epidemiológicos, genômicos, ambientais e espaciais. A articulação com os gestores locais também garante a devolução técnica dos achados, a incorporação das evidências às políticas públicas e a continuidade sustentável das ações em Melgaço e em outros territórios do Marajó. 

TEXTO: Jéssica Souza – Assessoria de Comunicação da UFPA

FOTOS: Divulgação do projeto

Relação com os ODS da ONU:

ODS 3 - Saúde e Bem-EstarODS 4 - Educação de QualidadeODS 17 - Parcerias e Meios de Implementação

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