Apesar de abrigar a maior floresta tropical do planeta, a biodiversidade da Amazônia ainda é pouco conhecida do ponto de vista científico, especialmente em suas áreas mais remotas. Um novo estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B mostra que essa lacuna de conhecimento não apenas se limita a grandes animais ou plantas, mas também afeta grupos menos visíveis e igualmente essenciais.
A pesquisa identifica onde estão e quais fatores direcionam os vazios sobre o conhecimento das moscas sarcosaprófagas, insetos associados à matéria orgânica animal e essenciais para o funcionamento dos ecossistemas. O estudo revela que o esforço científico dedicado a esse grupo é desigual no território amazônico, concentrando-se principalmente em áreas mais acessíveis, próximas aos grandes rios da região. Regiões remotas, muitas delas com alto valor de conservação, ainda permanecem pouco estudadas.

Intitulado Accessibility drives research efforts on Amazonian sarcosaprophagous flies, o estudo foi conduzido por Bruna Façanha (Unifap/UFPA), Raquel Carvalho (USP), Rony Almeida (UFS), Filipe França (University of Bristol/UFPA), José Roberto Sousa (Uema), Maria C. Esposito (UFPA) e Leandro Juen (UFPA). Os pesquisadores compilaram e analisaram mais de 8 mil registros de ocorrência de moscas decompositoras das famílias Calliphoridae, Mesembrinellidae e Sarcophagidae em toda a Amazônia brasileira.
As moscas sarcosaprófagas são insetos importantes para a decomposição da matéria orgânica, para a saúde pública e para a ciência forense. A pesquisa investigou como o conhecimento sobre esses insetos está distribuído no espaço e quais fatores explicam os vieses de coleta observados. Para isso, os autores comparam os dados reais com um modelo nulo, que simula uma “Amazônia idealmente amostrada”, na qual todas as áreas teriam a mesma probabilidade de serem estudadas.
Os resultados revelam um padrão preocupante: cerca de 40% das áreas florestais apresentam probabilidade de conhecimento científico inferior a 10%. Em contraste, regiões mais acessíveis, muitas vezes já degradadas, concentram a maior parte dos registros disponíveis. Esse padrão se repete tanto na análise das famílias quanto na das espécies mais bem representadas nos bancos de dados, indicando que as lacunas de conhecimento não se restringem a um recorte taxonômico, por exemplo.
“Essas moscas respondem rapidamente às mudanças ambientais e prestam serviços ecossistêmicos essenciais, como a decomposição da matéria orgânica. Ignorá-las significa perder informações valiosas sobre a saúde das nossas florestas”, explica a primeira autora do estudo, Bruna Façanha, pesquisadora da UFPA.

O estudo indica que a acessibilidade é um dos principais fatores que orientam o esforço de pesquisa na Amazônia. Estradas, rios, cidades e a proximidade de centros de pesquisa, onde estão concentrados os especialistas de diferentes grupos, facilitam a coleta de dados. Em contraste, regiões isoladas, mesmo quando altamente preservadas, permanecem praticamente desconhecidas para a ciência. Isso indica que a ciência não apenas deixa de alcançar essas áreas, mas também investe de forma desproporcional aonde já é mais fácil de chegar e realizar as coletas de biodiversidade.
O estudo reforça que não basta intensificar o esforço de pesquisa nos mesmos locais. Para reduzir efetivamente as lacunas de conhecimento, é fundamental investir em expedições direcionadas a áreas distantes e historicamente negligenciadas, aliadas a parcerias sólidas com comunidades locais e tradicionais, que conhecem profundamente o território, seus ciclos naturais e suas transformações.
“Para compreender de fato esses organismos, precisamos levar a pesquisa para regiões distantes e ainda pouco conhecidas, onde grande parte da biodiversidade permanece invisível para a ciência. Trata-se de uma ciência feita com e para as pessoas que vivem na Amazônia”, completa Bruna Façanha.
Todos os autores participam de redes científicas como o INCT-SinBiAm, o Capacream e a Rede Amazônia Oriental (AmOr), iniciativas que integram diferentes projetos, instituições e setores da sociedade para a produção e integração de dados, formação de pesquisadores e geração de conhecimentos para informar a recuperação e conservação da Amazônia.
“A ciência em rede permite somar esforços, compartilhar infraestrutura e conduzir pesquisas mais justas e representativas. Sem parcerias locais, é impossível avançar de forma ética e eficiente na Amazônia”, reforça o professor Leandro Juen, coordenador do INCT-SinBiAm e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).
O artigo completo está disponível aqui.

