Egressa de escola pública e pertencente à uma família de baixa renda, Weveni Ferreira da Conceição, de 26 anos, é hoje médica veterinária, residente pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Saúde Animal na Amazônia (PPGSAAM), no campus de Castanhal. Sua trajetória é marcada pela superação de barreiras sociais, econômicas e pessoais, assim como pela escolha consciente de fazer da ciência uma ferramenta de transformação.
Criada em um bairro periférico de Belém, Weveni sempre teve nos estudos o principal incentivo da família para mudar de vida. “Durante muito tempo, eu acreditei que esse espaço que eu estou hoje dentro da ciência não fosse destinado para mim. Eu sou uma menina parda, da periferia, filha de pais que não tiveram oportunidade de concluir o ensino fundamental. Estar aqui hoje é resultado de muito esforço meu e, principalmente, dos meus pais”, relata.

A formação acadêmica de Weveni começou na UFRA, onde se graduou em Medicina Veterinária. Em seguida, conquistou uma vaga na Residência em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais da UFPA, sendo este um dos momentos mais marcantes de sua vida. Mas o começo de sua residência ocorreu em um período de dificuldade familiar: seu pai, única fonte de renda da família, sofreu um grave acidente doméstico e foi internado na UTI. Recém-formada e ainda sem o registro profissional (CRMV), Weveni precisou trabalhar fora da área para sustentar a casa.
“Eu estudava para a residência nas paradas de ônibus, entre um recenseamento e outro, com o livrinho que eu tinha. Quando eu passei, achei que não era real. Foi uma realização absurda num momento em que a vida da minha família estava de cabeça para baixo”, conta a médica veterinária, que reconhece a conquista como um símbolo de representatividade e de ruptura com limites historicamente impostos.
Anestesiologia em animais silvestres – Desde o início de sua graduação, Weveni escolheu a anestesiologia veterinária como sua área de atuação. A decisão nasceu ainda na “Semana do Calouro”, quando ingressou em uma liga acadêmica de cirurgia e anestesia e, desde então, todas as suas escolhas acadêmicas foram direcionadas para essa especialidade. Seus trabalhos refletem essa coerência de percurso: em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentou um estudo anatômico da topografia do cone medular em “preguiça-real”, visando a viabilidade da anestesia epidural; e no seu Trabalho de Conclusão de Residência (TCR) argumentou sobre a anestesia por via oral transmucosa com dexmedetomidina e cetamina, avaliando efeitos sedativos e alterações cardiorrespiratórias.

Atualmente, a pesquisadora é mestranda do PPGSAAM/UFPA de Castanhal, onde desenvolve sua pesquisa baseada no bloqueio anestésico guiado por ultrassom em preguiça-comum, mantendo seu principal foco de estudo nos animais silvestres da fauna amazônica. “Eu sempre quis levar soluções práticas para a clínica do dia a dia. A gente vê muitos casos de animais atropelados, eletrocutados, e há uma grande escassez de estudos que ajudem o veterinário que está na linha de frente, então os resultados dos meus estudos podem contribuir de forma significativa para a rotina clínica, dos profissionais que atuam na anestesiologia e na cirurgia, mas principalmente, dos animais silvestres”, explica.
“Para muitas pessoas, a anestesia é só ‘colocar o paciente para dormir’, mas na verdade ela é um conjunto complexo de técnica, estudo, prática, conhecimento, habilidade e responsabilidade, e isso é o que me motiva: quanto mais eu puder trazer segurança, conhecimento e conforto, tanto para mim e para as pessoas que vão manipular esses animais, quanto para os ‘pacientes’, mais motivada eu sigo pesquisando”, avalia a pesquisadora.
Mulheres na ciência – Refletindo sobre o papel das mulheres como produtoras de ciência, Weveni acredita que a presença feminina representa uma quebra de barreiras e mudança de paradigmas. “Ainda existe muito machismo na ciência. As mulheres enfrentam desvalorização, menos oportunidades e a sobrecarga doméstica. Isso gera aquela necessidade constante de provar competência. Mas mulheres na ciência trazem olhares únicos, perguntas diferentes, uma sensibilidade que amplia a forma de fazer pesquisa”, analisa. A médica veterinária vê a ocupação desses espaços como um ato político e social. “Quando uma mulher está na ciência, ela inspira outras meninas a acreditarem que aquele lugar também é delas”, pontua Weveni.
Mestranda no PPGSAAM da UFPA, Weveni reconhece que sua trajetória é marcada pela superação, mas não quer que o caminho seja tão difícil para quem vem depois. “Não desejo que outras pessoas passem pelas necessidades que eu passei. O ideal é que tenham estrutura, apoio, condições básicas. A dedicação continua sendo essencial, mas com amparo, o caminho é mais justo.” E mesmo com tantas conquistas, ela mantém os olhos no futuro. “Eu estou num lugar muito bom, mas ainda não cheguei nem perto do que eu sonho. Tenho muitos objetivos para alcançar”, revela a pesquisadora, ao compartilhar um retrato de como a educação, a persistência e a ciência podem romper ciclos históricos de exclusão e abrir novos horizontes para a Amazônia, para as mulheres e para a produção científica brasileira.
A trajetória da pesquisadora Weveni Ferreira da Conceição integra a edição 2026 da série especial Mulheres e Meninas na Ciência. Acompanhe as próximas publicações para conhecer as histórias, trajetórias profissionais e realizações de pesquisadoras dos diferentes campi da UFPA.
