Ribeirinha, mãe, servidora técnico-administrativa, pesquisadora, doutoranda e coordenadora de um espaço que garante permanência e dignidade às estudantes mães. A história de Idalina Caldas Moia é profundamente amazônica, política e transformadora. Ela constrói uma trajetória marcada pela articulação entre território, maternidade, educação e produção de conhecimento, atuando para fortalecer a permanência de mulheres e mães no espaço acadêmico amazônico, em especial, no Campus Cametá da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Sexta filha de uma família de oito irmãos, Idalina nasceu e cresceu na Comunidade ribeirinha Rio Furtados, no município de Cametá, tendo sua caminhada marcada pelo território e pelo compromisso com a educação como instrumento de transformação social. Graduada em Letras/Língua Portuguesa, ingressou na UFPA por meio de concurso público e atua, há 12 anos, no Campus Cametá como servidora técnico-administrativa. Atualmente, é secretária da Faculdade de Educação do Campo e coordenadora do Espaço Materno-Infantil do campus.
“Esses espaços dialogam diretamente com minha história de vida e reafirmam a valorização dos saberes, das culturas e das identidades das populações do campo e ribeirinhas. Como mulher, mãe, ribeirinha, trabalhadora de universidade pública e pesquisadora, minha trajetória é atravessada por desafios cotidianos que exigem resistência, organização e compromisso”, afirma.
Pesquisa, literatura e território – Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras, na turma ofertada em Cametá, Idalina atua com estudos sobre produção literária de mulheres africanas, com destaque para autoras como Paulina Chiziane, articulando literatura, gênero, território e decolonialidade. Ela integra o Grupo de Pesquisa Avante Mulheres e desenvolve investigações que colocam no centro as experiências de mulheres, mães e sujeitos ribeirinhos.
“Produzir conhecimento a partir do território transforma não apenas a ciência, mas também as pessoas envolvidas no processo. Quando essas experiências são colocadas no centro da pesquisa, novas narrativas emergem, rompendo silenciamentos históricos e ampliando os sentidos do que entendemos como ciência e literatura”, destaca. Para Idalina, produzir ciência nesse campo permite que ela transforme suas vivências em reflexão crítica, o que contribui para uma educação mais humana, inclusiva e comprometida com a realidade amazônica.

Resistência, representatividade e reafirmação – Para Idalina, a importância do papel da mulher como produtora de ciência vai além de democratizar o conhecimento e ampliar os horizontes da própria ciência, exerce também um papel político, transformador e coletivo. “Produzir ciência, para nós, é um ato de resistência, de afirmação e de compromisso”, enfatiza.
“Durante muito tempo, as mulheres foram afastadas dos espaços de produção do conhecimento ou tiveram suas contribuições invisibilizadas. Então, quando uma mulher produz ciência, ela não apenas gera conhecimento, mas também questiona quem produz, para quem se produz e com base em quais experiências produz. E quando as mulheres ocupam esse espaço, especialmente aquelas vindas de territórios historicamente silenciados, a ciência passa a incorporar novas perguntas, novos métodos e outras formas de olhar a realidade”, acrescenta.
Porém os desafios enfrentados pelas cientistas amazônidas ainda são muitos, especialmente pela desigualdade de acesso a recursos, pelo financiamento e pela visibilidade, além de barreiras territoriais e de uma grande luta ainda em busca da equidade de gênero, aponta Idalina.
“A presença numérica das mulheres na ciência não significa, necessariamente, igualdade de condições. O chamado ‘efeito tesoura’ revela como, ao longo da trajetória acadêmica, muitas mulheres vão sendo, gradualmente, afastadas dos espaços de poder, decisão e liderança, especialmente nos momentos em que a maternidade e o cuidado entram em cena”, indica Idalina. “Esse processo não ocorre por falta de competência, mas por estruturas acadêmicas ainda pensadas com base em uma lógica masculina e descolada das realidades do cuidado. Conciliar carreira científica e maternidade segue sendo um dos maiores desafios, pois o sistema acadêmico raramente reconhece o trabalho invisível que sustenta a vida”, infere a coordenadora, defendendo a importância de mudanças estruturais nas instituições para garantir permanência, reconhecimento e equidade de gênero na ciência.
Coordenadora do Espaço Materno-Infantil do Campus Cametá, criado com o objetivo de fortalecer ações de reconhecimento, acolhimento e permanência das estudantes mães na universidade, Idalina, por fim, reforça a importância da ocupação de diferentes espaços na academia, como espaços de gestão, em que a atuação institucional fortalece iniciativas como esta, essenciais à realidade enfrentada pelas universitárias.
“Minha presença não é apenas individual, ela carrega outras mulheres, outras histórias e outros territórios e reafirma a importância de ocupar, transformar e ressignificar a Universidade com base nas realidades amazônidas”, lembra a pesquisadora.
Esta é mais uma trajetória de cientistas da Amazônia contada pela Série Meninas e Mulheres na Ciência, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Acompanhe!

