Você já pensou no quanto a ciência produzida por mulheres impacta positivamente o seu dia-a-dia? Seja qual for o contexto, desde os sites que você acessa no computador até o filé de peixe que você compra no supermercado, o olhar especializado de uma cientista sempre está presente no nosso cotidiano. Um exemplo desse fenômeno é a trajetória da bióloga e especialista em genética forense Leilane Brito.
Apaixonada por genética e ciências naturais desde o ensino médio, Leilane atua como pesquisadora e é discente de doutorado no Programa de Pós Graduação em Biologia Ambiental (PPBA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus Bragança. “Quando iniciei o curso de Ciências Naturais na UFPA, tive a oportunidade de conhecer pesquisas de diversas áreas de conhecimento, estagiei em alguns laboratórios, também realizei algumas coletas de campo, até encontrar o que realmente me identifiquei: a genética”, conta a jovem pesquisadora.
Hoje, já no doutorado, Leilane é uma das pesquisadoras empenhadas em utilizar a genética para produzir métodos de combate a crimes ambientais da indústria alimentícia, principalmente a pesqueira. “Nós realizamos a coleta de peixes processados vendidos em supermercados e restaurantes de diferentes cidades do Pará e no laboratório de Microbiologia do Pescado, localizado no IECOS, analisamos regiões do DNA desses produtos que são capazes de identificá-los”, explica Leilane.
Investigadora de fraudes alimentares – Imagine a seguinte situação: é sábado, dia de almoço com toda a família paraense, o que significa que o açaí e o peixe frito não podem faltar. Na mesa, enquanto saboreia a refeição, você sorri ao lembrar da promoção de filé de dourada no mercado. Tudo parece bem até que um dos seus sobrinhos começa a sufocar abruptamente. Você e os seus familiares o socorrem com urgência e, já na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), descobrem que ele sofreu uma crise alérgica grave. Só há um problema: o seu sobrinho não é alérgico à dourada, pelo contrário, o bagre dourado é o peixe favorito dele!
Leilane Brito tem a explicação: você e a sua família foram vítimas de uma fraude alimentar. O filé de peixe promocional que você comprou mais cedo, anunciado pelo mercado e rotulado pelo fornecedor como dourada, não era dourada, mas outra espécie de peixe com aparência semelhante (essa, sim, intolerável pelo seu sobrinho).

“Quando se trata de peixes, a fraude pode gerar sérios prejuízos à sociedade em diversos âmbitos. Um deles é na saúde pública, quando um produto é rotulado com o nome de um peixe, mas é substituído por outro que pode conter substâncias que causam alergias ou que são tóxicas ao consumidor”, alerta a pesquisadora. “Eu sempre me identifiquei com a área de genética forense do pescado, porque ela me permite falar de genética de forma aplicada, alcançando um público além da academia.”
Além dos prejuízos à saúde pública, a jovem cientista também alerta sobre os prejuízos ambientais e os danos econômicos associados à fraude, sobretudo quando esta envolve peixes ameaçados de extinção. “A troca de espécies dificulta a elaboração de políticas públicas eficientes para a conservação das espécies vulneráveis. E, geralmente, a maioria das substituições envolvem trocas de espécies mais caras por outras mais baratas, gerando lucros para as empresas em detrimento do consumidor”, acrescenta.
Por isso, Leilane almeja gerar tecnologias inovadoras com a sua pesquisa, que também funcionem como soluções para essa problemática. “Soluções como selos de autenticidade baseados em marcadores de DNA, para a autenticação e certificação de peixes de importância comercial no Norte do Brasil”, exemplifica a jovem.
Prêmio Jovem Cientista – Os resultados preliminares da tese de doutorado de Leilane já renderam à estudiosa ótimos resultados, como o Prêmio Jovem Cientista do IECOS (Instituto de Estudos Costeiros/UFPA), premiação focada em reconhecer talentos em pesquisa e conservação de ecossistemas costeiros amazônicos, e publicações em revistas científicas internacionais de renome, como a Neotropical Ichthyology e PeerJ. “Receber o prêmio foi gratificante, pois simboliza o reconhecimento de um longo trabalho de pesquisa”, assegura Leilane. “Antes de ingressar na Universidade, o mundo da pesquisa sempre me pareceu muito distante, e na verdade, não sabia que jovens podiam realizar trabalhos em laboratórios.”
Em paralelo à vida de pesquisadora, Leilane também deseja atuar como professora de Ciências Naturais no Ensino Fundamental, e espera conseguir inspirar outras jovens com a sua trajetória profissional. “Quando as mulheres assumem espaços, elas ajudam a construir um cenário de representatividade na ciência, despertando o interesse de jovens estudantes que almejam ocupar diferentes espaços na sociedade”, destaca. “Ser pesquisadora e estar em papel de destaque quebra barreiras de desigualdade de gênero, estimula a permanência e avanço de outras mulheres e chama a atenção para outros temas anteriormente não percebidos pelo sexo oposto.”



