Faz 20 anos que as mulheres são maioria na formação científica brasileira. Os dados mais recentes, disponibilizados em 2025 pelo Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG), indicam que o corpo discente dos programas de pós-graduação (PPGs) é cerca de 57% feminino. É nítida a significativa contribuição feminina à produção de ciência no Brasil, sobretudo quando consideramos que 80% da pesquisa brasileira está ligada a esses programas. Todos os dias, mulheres na ciência questionam, investigam e fazem descobertas que melhoram a realidade cotidiana das pessoas.
Leticia Maria Martins Siqueira, pós-doutoranda no Laboratório de Ciência e Engenharia de Petróleo e Energia da Universidade Federal do Pará (LCPETRO – Campus Salinópolis), é uma dessas cientistas. Formada em Química (Licenciatura) e Engenharia Química, também pela UFPA, a pesquisadora é apaixonada pela sua área e já acumula mestrado, doutorado e quase duas décadas de atividade em laboratórios. As pesquisas de Letícia contribuem para as indústrias alimentícias, farmacêuticas e cosméticas e até para diminuir os impactos ambientais do setor petroquímico.
“A área de Engenharia Química é um leque de possibilidades e aprendizados já que podemos atuar no desenvolvimento de diversos setores”, compartilha a cientista, que já trabalhou desenvolvendo bioprodutos com tecnologia supercrítica e hoje investiga o fluxo reativo em carbonatos compactos e heterogêneos do Pré-Sal brasileiro.
Tecnologia supercrítica – “A tecnologia supercrítica (CO₂ supercrítico) é uma tecnologia verde que proporciona a obtenção de extratos diferenciados, livres da contaminação de solventes orgânicos tóxicos”, explica. “Além disso, a obtenção dos seus produtos é de qualidade superior quando comparados aos produtos obtidos por técnicas convencionais.” Além da qualidade superior, os produtos em questão tratam-se de bioprodutos, ou seja, produtos desenvolvidos com recursos biológicos renováveis, como plantas e seus derivados.
A lista de matérias-primas já processadas no LABTECS (Laboratório de Tecnologia Supercrítica) a partir da tecnologia supercrítica inclui frutas típicas da Amazônia, como açaí, buriti, muruci e jambu. Um dos estudos publicados por Letícia e seus colegas de laboratório da UFPA, por exemplo, descobriu que o extrato de açaí obtido por CO₂ supercrítico apresentou concentrações altíssimas de carotenoides, como o betacaroteno, que confere propriedades fotoprotetoras e, por isso, é bastante utilizado na formulação de protetores solares e outros cosméticos. Mesmo o segundo produto obtido, chamado de polpa desengordurada do açaí, também é rico em antocianinas, cuja atuação é antioxidante, anti-inflamatória e neuroprotetora. Essa descoberta fez parte da tese de doutorado da pesquisadora e comprova a eficácia tanto da tecnologia supercrítica quanto evidencia um grande potencial para a bioeconomia local.

Acidificação em poços de petróleo – Paralelamente, em seu pós-doutorado no LCPETRO, Letícia investiga como a acidificação – técnica usada para aumentar a produtividade de poços de petróleo – interage com as rochas. “A implementação eficaz dessas operações impacta diretamente a eficiência da produção e na geração de energia. Compreendendo melhor as interações que ocorrem entre a rocha e o fluido nos laboratórios pode-se melhorar a segurança operacional em campo”, afirma.
Equidade de gênero e química – Desde cedo, Letícia sempre quis ser engenheira: “o meu interesse na Engenharia Química a princípio foi pelo fato de querer ser engenheira e amar química, depois, conhecendo o curso, amei a versatilidade de poder trabalhar em vários ramos que a área te proporciona”, relata. Já a carreira acadêmica veio com o tempo, conforme a cientista trabalhou em laboratórios na UFPA e consolidou a sua paixão pela docência. “Até hoje, a minha parte favorita do trabalho é atuar dentro dos laboratórios nas partes experimentais e com os alunos”, acrescenta.
Para Letícia, a presença de mulheres na ciência também representa um passo importante para ampliar a equidade de gênero no meio acadêmico. “Na sociedade, infelizmente, muitas vezes a mulher ainda precisa provar constantemente sua capacidade para ocupar espaços de liderança. Por isso, é fundamental que mais mulheres estejam em posições de decisão e coordenação em projetos de pesquisa. Além de promover a equidade, isso também inspira e incentiva outras mulheres a seguirem esse caminho”, conclui.
