Fazer ciência, ocupar uma cadeira em sala de aula e ter acesso à educação por muito tempo foram direitos negados às mulheres no Brasil. Em um país marcado por estruturas patriarcais, o acesso feminino à educação formal só foi garantido em 1827, com a promulgação da Lei Geral do Ensino. Já o ingresso no ensino superior tornou-se possível apenas 52 anos depois, em 1879.
Foi nesse contexto de avanços conquistados ao longo de gerações que trajetórias como a da professora Viviane Almeida se tornaram possíveis. Sua história evidencia desafios, conquistas e contribuições das mulheres na ciência.
Filha de pais nordestinos e natural de Fortaleza (CE), Viviane mudou-se ainda recém-nascida para o Pará, onde cresceu e construiu sua trajetória acadêmica. O interesse pela tecnologia surgiu cedo, ainda na infância, ao observar o pai montar e instalar programas no computador da família.
A primeira escolha profissional foi a Engenharia Química. Viviane chegou a iniciar o curso na Universidade Federal do Pará (UFPA), mas decidiu seguir outro caminho. Foi na Ciência da Computação que encontrou sua vocação. Concluiu a graduação na área, fez especialização e, posteriormente, obteve os títulos de mestre e doutora em Ciência da Computação.
Com 17 anos de atuação na pesquisa e um currículo consolidado, Viviane iniciou sua trajetória científica em 2009, ao ingressar no mestrado. Atualmente, é docente da Faculdade de Engenharia de Computação (FECOMP) e do Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada (PPCA) da UFPA, no Campus de Tucuruí.
Ao longo da carreira, a pesquisadora vivenciou desafios relacionados à baixa presença feminina na Computação – área que ainda apresenta uma das menores taxas de participação de mulheres. “Na área da computação, o primeiro desafio sempre foi a falta de mulheres. Em vários momentos eu era a única mulher no ambiente. Com o tempo fui me adaptando, me acostumando a esse lugar”, relata.

Desafios e permanência das mulheres na ciência – Apesar dos esforços de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), que incluiu a igualdade de gênero entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 5), a presença feminina nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM) ainda enfrenta obstáculos.
Na experiência de Viviane, essa realidade esteve presente durante toda a trajetória acadêmica e profissional. “Por alguns momentos eu percebia que me sobrecarregava muito para poder me destacar nesse espaço. É desafiador porque muitas vezes estamos isoladas nessa carreira. Não é um ambiente confortável; existe sempre uma pressão”, afirma.
A partir dessas experiências, Viviane passou a atuar diretamente em iniciativas voltadas à promoção da equidade de gênero na ciência. Entre 2019 e 2023, ao assumir a Coordenação Acadêmica do Campus de Tucuruí, ela contribuiu para fortalecer ações institucionais voltadas à inclusão. Uma delas é o Programa Mulheres e Meninas na Engenharia (PMME), criado em 2019 e vinculado ao campus.

Atualmente, o programa reúne cerca de 25 projetos nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, com o objetivo de incentivar a participação feminina nas engenharias e áreas tecnológicas. O PMME também atua no estímulo ao ingresso de meninas da educação básica no ensino superior. Hoje, cerca de 135 mulheres participam das atividades do programa, entre estudantes da graduação e da educação básica.
“Este ano vamos iniciar a replicação do programa no Tocantins, no Instituto Federal do Tocantins, e também no Instituto Federal de Alagoas. Nosso objetivo é ampliar o ingresso de meninas e garantir a permanência das que já estão na graduação, para que mais mulheres cheguem ao mercado de trabalho”, explica.
Rede de apoio para mães universitárias– Atenta às demandas das estudantes do campus, Viviane também identificou a necessidade de criar um espaço de acolhimento para alunas que são mães. Em 2023, foi implantada a Brinquedoteca Espaço Acolher, iniciativa vinculada ao PMME e coordenada pela professora.
O projeto surgiu após a constatação de que muitas estudantes abandonavam o curso durante a maternidade. “Observamos que alunas que engravidavam durante o curso ou que já tinham filhos desistiam com mais facilidade. Foi quando desenvolvemos o projeto de uma brinquedoteca universitária”, conta.
O espaço funciona como rede de apoio para mães estudantes e já beneficiou mais de 50 crianças e suas responsáveis. “Hoje a brinquedoteca já completa três anos. Muitas alunas conseguem permanecer na universidade porque têm esse apoio”, destaca.
Atuação institucional e impacto social -Além das atividades de ensino e pesquisa, Viviane integra atualmente a Comissão para Equidade de Gênero da UFPA (CEG/UFPA), que acompanha e promove políticas institucionais voltadas ao enfrentamento das desigualdades e discriminações de gênero na universidade.
A pesquisadora também coordena um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), intitulado “Potencializando Meninas e Mulheres na Região do Lago de Tucuruí – Pará: Práticas de Incentivo, Permanência e Conclusão nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”. A iniciativa fortalece a aproximação da universidade com escolas de ensino médio e comunidades da região.
Para meninas e mulheres que sonham seguir carreira na ciência, Viviane reforça a importância de romper estereótipos e fortalecer redes de apoio. “As meninas precisam desconstruir o estereótipo de gênero na ciência e confiar na própria capacidade. Também é importante buscar letramento de gênero e construir redes de apoio durante a graduação. Isso ajuda a enfrentar o preconceito e a não desistir dos objetivos”, aconselha.
Esta reportagem integra a série especial produzida pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em alusão ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, iniciativa que reúne histórias de pesquisadoras de diferentes campi da instituição e amplia o debate sobre a presença e o protagonismo feminino na produção científica.



