A Universidade Federal do Pará (UFPA) foi uma das parceiras da quarta edição do Fórum Varanda da Amazônia, iniciativa idealizada pela cantora Fafá de Belém, que, nesta edição, reúne mulheres de diferentes trajetórias para compartilhar conhecimentos, experiências e reflexões sobre a região amazônica. Com o tema “Amazônia, substantivo feminino”, o encontro é realizado no Mercedários UFPA e propôs ampliar o debate sobre o protagonismo feminino na construção da identidade, da cultura e da ciência e na defesa dos territórios amazônicos.
A programação reuniu pesquisadoras, artistas, lideranças comunitárias, representantes de povos tradicionais e mulheres que atuam em diferentes áreas do conhecimento. Ao longo de dois dias, seis painéis abordaram questões relacionadas à ancestralidade, à espiritualidade, à ciência, à inovação, à economia e à produção cultural, reconhecendo a diversidade de experiências e saberes que constituem a Amazônia.

Presente na abertura do evento, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, destacou a importância da parceria e o papel da Universidade na valorização das iniciativas que reconhecem a Amazônia por meio das experiências e dos conhecimentos de seus próprios habitantes.
“Pensar o Brasil e o futuro do planeta a partir da Amazônia exige reconhecer o protagonismo de quem vive aqui. E as mulheres amazônicas produzem conhecimento, sustentam comunidades, preservam nossa cultura e defendem nossos territórios. A Universidade tem o compromisso de fortalecer essas vozes e esses saberes e é por isso, com esse compromisso, que a UFPA tem muita honra em receber o Fórum Varanda da Amazônia e se somar a essa construção coletiva”, destacou.
Gilmar Pereira da Silva também ressaltou a contribuição de Fafá de Belém para a projeção da cultura paraense e o orgulho da Universidade em receber uma iniciativa que fortalece o reconhecimento da região e de seus povos.
Ao se dirigir à artista, o reitor destacou o caráter público e acolhedor da Instituição. “A Universidade também é sua casa, a casa dos amazônidas, a casa do Brasil”, declarou.




Projeto – Criado com o desejo de ampliar os espaços de expressão das vozes amazônicas, o Fórum Varanda da Amazônia chegou à quarta edição com a proposta de reconhecer conhecimentos que, historicamente, nem sempre tiveram a visibilidade ou o reconhecimento devidos.
Neste ano, a programação partiu da inspiração da imagem das mulheres guerreiras associadas às narrativas ancestrais da região. O muiraquitã, amuleto tradicionalmente relacionado à proteção e à força feminina, também integrou a identidade simbólica do encontro.

Idealizadora do fórum, Fafá de Belém destacou a importância de fortalecer os vínculos entre as mulheres amazônicas e de reconhecer a potência cultural da região sem abrir mão de suas características e identidades.
Em sua participação, a artista relembrou os desafios enfrentados ao longo de cinco décadas de carreira para ocupar espaços nacionais e internacionais preservando sua maneira de falar, sua cultura e suas referências paraenses. Para ela, o fortalecimento coletivo é fundamental para superar preconceitos e ampliar oportunidades.
“A nossa maneira de falar, a nossa cultura e a nossa história têm que ocupar espaço com a força que têm. Eu levei o Pará comigo por todos os lugares por onde passei. E quero que outras mulheres amazônicas também possam ser ouvidas, reconhecidas e respeitadas. Quando a gente reconhece a força umas das outras e caminha junto, abre caminhos para muitas outras”.


Painel de abertura – O primeiro painel, dedicado ao tema “Ancestralidade, espiritualidade e pertencimento”, abriu as discussões do eixo “Mulheres, corpo e território”. A conversa reuniu experiências de mulheres que atuam na preservação da memória, na defesa dos direitos coletivos e na produção de conhecimentos sobre a Amazônia.
Entre as participantes, a liderança quilombola Érica Monteiro apresentou reflexões sobre os desafios enfrentados pelas comunidades tradicionais para garantir direitos fundamentais, especialmente a regularização dos territórios, o acesso às políticas públicas e o reconhecimento de seus modos de vida.

A coordenadora Executiva da Malungu e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) destacou que a proteção dos territórios está diretamente relacionada à preservação da identidade, da cultura e das condições de existência dessas populações. Também chamou atenção para a importância dos conhecimentos tradicionais, transmitidos por mulheres que atuam como parteiras, benzedeiras e guardiãs de práticas comunitárias de cuidado.
Em seu depoimento, Érica Monteiro questionou a recorrente representação da Amazônia como um território composto apenas por riquezas naturais, sem considerar as populações que vivem na região e participam de sua preservação. A liderança ressaltou a necessidade de assegurar a presença dessas comunidades nos espaços de debate e decisão sobre o futuro amazônico.

A discussão também contou com a contribuição da professora emérita da UFPA Violeta Loureiro, pesquisadora com longa trajetória acadêmica dedicada à Amazônia. Ela compartilhou experiências pessoais e profissionais para refletir sobre as transformações da condição feminina ao longo das últimas décadas.
Com base em memórias da infância em Roraima, das viagens pelos rios amazônicos e de sua formação intelectual, a professora abordou a importância da educação, as mudanças nas relações de trabalho e as conquistas históricas das mulheres.
Homenagem – Além dos debates, a programação contemplou homenagem às mulheres cujas trajetórias contribuíram para a valorização da cultura e dos conhecimentos amazônicos. Uma das homenageadas com o Prêmio Muiraquitã de Honra, novidade desta edição, foi a cantora Dona Onete, reconhecida por sua contribuição à cultura popular paraense.
Professora de História e pesquisadora das tradições culturais do interior do estado, a artista iniciou sua carreira fonográfica aos 73 anos e conquistou reconhecimento nacional e internacional com uma produção musical profundamente ligada às referências culturais amazônicas.
