UFPA celebra trajetória de Cristovam Diniz com título de professor emérito

No auditório do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), o tempo pareceu suspenso. Ali foi realizada a sessão solene de outorga do título de professor emérito a Cristovam Wanderley Picanço Diniz. Uma homenagem que transcendeu o protocolo e se transformou em celebração da vida, da ciência e da palavra.

Com a doce voz de quem conta uma história, o recém titulado professor emérito conduziu o público por um percurso íntimo. Seu discurso, tecido com memórias, afetos e imagens, hipnotizou a plateia.

“Para agradecer-lhes a presença – e a honraria maior que me proporciona esta instituição – busquei, entre textos, memórias e afetos, a essência do que aprendi neste lugar quase sagrado”, começou. O que vinha a seguir era história e poesia.

Como quem abre um mapa afetivo da Amazônia, ele transportou o público para a paisagem de sua infância: “Na Amazônia, [a história] é escrita nas águas e nas margens dessa grande planície alagada. […] No lugar onde cresci, a cada cheia, o mapa se dissolve; a cada vazante, ele renasce transformado”.

E mais adiante, ao evocar suas origens, trouxe imagens sensoriais que pareciam atravessar o auditório. “O cheiro de artemísia e a paisagem das várzeas revisitadas recuperam a alegria da infância antes mesmo que a linguagem explique”.  Infância, que em sua narrativa, não era apenas lembrança, mas fundamento. “A infância, afinal, é o primeiro laboratório de todos nós – um lugar onde a observação precede a teoria e o espanto antecede o método”.

Ao falar da universidade, seu discurso ganhou densidade simbólica e histórica. Ele então metaforizou. “A Universidade Federal do Pará tornou-se, ao longo de décadas, uma catedral do conhecimento na Amazônia. Universidades e catedrais se aproximam como realizações do espírito humano que resistem ao tempo”.

Na plateia, o silêncio era atento. Amigos, familiares e ex-alunos acompanhavam cada palavra como quem reconhece, ali, fragmentos de si. Não era apenas a trajetória de um professor que se narrava, mas também a história de todos que foram tocados por ela.

À mesa, autoridades acadêmicas reforçaram, em suas falas, a dimensão do homenageado. “Cristovam Diniz representa o que há de mais nobre na universidade. A capacidade de produzir conhecimento sem perder a humanidade”, destacou o reitor Gilmar Pereira da Silva.

A vice-reitora da UFPA, Loiane Prado Verbicaro, ressaltou. “Hoje celebramos não apenas um pesquisador de excelência, mas um mestre que formou gerações com sensibilidade, ética e compromisso”. Já a diretora do ICB, Renata Noronha, lembrou o simbolismo do espaço. “Receber esta cerimônia aqui é reconhecer que sua história e a história deste instituto se confundem. Este lugar também é feito de sua presença.”

Docente titular do Instituto de Ciências Biológicas, Cristovam Diniz também atuou como pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação (1993–1997) e reitor da UFPA (1997–2001). Graduado em Medicina pela instituição, construiu uma trajetória marcada pelo rigor científico e pela sensibilidade intelectual. Seguiu pela pesquisa em Biofísica, onde concluiu mestrado e doutorado, além de quatro estágios de pós-doutorado em instituições internacionais.

Ao longo de sua carreira, desenvolveu dezenas de projetos de pesquisa, orientou estudantes em todos os níveis de formação e publicou mais de uma centena de artigos científicos, consolidando-se como referência nas Ciências Biológicas.

Durante sua gestão como reitor, promoveu avanços importantes para a instituição, com destaque para o fortalecimento da estrutura multicampi, ampliando o acesso ao ensino superior em diferentes regiões do Pará. Também incentivou a formação avançada de recursos humanos e apoiou iniciativas pioneiras em educação a distância, além de fomentar grupos de pesquisa estratégicos na Amazônia.

O Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFPA aprovou a concessão do título por meio da Resolução nº 6.001, de 27 de novembro de 2025. O dossiê que fundamentou o processo foi elaborado pelo professor Edmar Tavares da Costa, responsável também pela leitura do currículo durante a cerimônia.

Em tom emocionado, o homenageado devolveu a homenagem ao coletivo que o formou: “Esta cerimônia vai muito além do reconhecimento individual: é a expressão visível de um trabalho integrado, tecido ao longo do tempo por muitas mãos, ideias e afetos. Receber o título de professor emérito nesta instituição significa inscrever-se, de modo permanente, nessa obra coletiva.”

E, ao final, deixou uma síntese simples e poderosa de sua trajetória. “Se um dia meus netos me perguntarem o que fiz na vida, espero poder responder com simplicidade: servi à educação pública, à ciência e à Amazônia”, concluiu.

Leia o Discurso de Cristovam Wanderley Picanço Diniz na íntegra

As Pessoas, os Rios e a Universidade

(Texto em agradecimento à concessão do título de Professor Emérito)

Por Cristovam W P Diniz

Magnífico Reitor, Senhora Vice-Reitora, Senhora Diretora do Instituto de Ciências Biológicas, Senhoras e Senhores representantes na Administração Superior, colegas docentes- pesquisadores e servidores técnico-administrativos, ex-alunos da graduação e da pósgraduação, estudantes, amigos e familiares,

Para agradecer-lhes a presença – e a honraria maior que me proporciona esta instituição – busquei, entre textos, memórias e afetos, a essência do que aprendi neste lugar quase sagrado. Como se fosse uma história contada em voz baixa, compartilho fragmentos do tempo que vivi e das convicções que me acompanharam, na esperança de entreter-lhes enquanto agradeço, e quem sabe, retocar as cores da paisagem que carregam quando abraçaram a Universidade de ontem, de hoje e de amanhã.

Há lugares onde a história se escreve nas cordilheiras. Às vezes nos desertos.  Outras vezes nas vizinhanças dos círculos polares. Na Amazônia, ela é escrita nas águas e nas margens dessa grande planície alagada. Os rios amazônicos que atravessam a paisagem a constroem, a apagam e a recriam incessantemente. No lugar onde cresci, a cada cheia, o mapa se dissolve; a cada vazante, ele renasce transformado. As margens que ontem pareciam perenes hoje são espelho d’água. O que parecia permanente revela-se transitório.

Crescer nessa planície é aprender muito cedo que a estabilidade nestas terras e nestas águas não é uma oferta da natureza, mas uma conquista humana. Partilhamos a infância com as várzeas do Rio Trombetas, do Nhamundá e do Cuminá, onde o tempo não se media por calendários, mas pelo comportamento das águas, pela safra da castanha e da juta, pela migração dos pássaros e pelo retorno dos peixes.  O cheiro de artemísia e a paisagem das várzeas revisitadas recuperam a alegria da infância antes mesmo que a linguagem explique…

Nos rios de águas claras e barrentas aprendíamos que a vida se sustentava no equilíbrio entre fragilidade e resistência. A canoa leve que transportava pessoas, alimentos, enfermos e devotos de São Sebastião ensinava que a sobrevivência na Amazônia dependia da cooperação.  A vida seguia o seu próprio ritmo sem prestar atenção ao relógio dos homens.

Crescemos numa casa onde o mundo chegava em caixas de livros como a coleção do Tesouro da Juventude, em revistas e histórias contadas em dias de chuva, enquanto, do lado de fora, a Amazônia ensinava suas próprias lições – mais antigas e mais pacientes.

Foi também ali que aprendemos que a leitura podia abrir horizontes maiores do que qualquer rio. Mamãe e papai nos fizeram leitores, como se soubessem que seria a ponte que nos permitiriam atravessar distâncias invisíveis. Talvez por isso, mesmo vivendo num lugar remoto, nunca tivemos a sensação de isolamento – habitávamos simultaneamente, o pão de açúcar, as margens dos rios, o lago do salgado, e o mundo.

Naquele tempo molhado de água doce, o relógio parecia trabalhar a nosso favor e a pressa ainda não havia sido inventada. Entre a procissão e o medo do sobrenatural que a matraca anunciava com o canto de encomendação das almas na semana santa, formou-se lentamente uma curiosidade que mais tarde encontraria na ciência a sua linguagem e as suas respostas. A infância, afinal, é o primeiro laboratório de todos nós – um lugar onde a observação precede a teoria e o espanto antecede o método.

Ali aprendíamos que a abundância pode coexistir com a fragilidade, e que a sobrevivência dependia menos da força e mais da resposta adaptativa. A natureza oferecia o contexto, estabelecia as condições e selecionava. Assim, enquanto o rio nos ensinava a resistência e a cooperação, os livros nos ensinavam a imaginação e a dúvida. 

Durante séculos, a Amazônia inteira foi vista de fora – como fronteira, como reserva, como obstáculo ou como promessa. Pouco se perguntava como viviam as pessoas que aqui estavam, e menos ainda como poderiam construir um futuro baseado no conhecimento e não apenas na extração. Grandes projetos chegaram como tempestades: abriram estradas, ergueram barragens e removeram montanhas. E muitas vezes partiram deixando marcas sociais e mudanças ambientais difíceis de serem reparadas.

Havia, entretanto, um vazio essencial que precisava ser preenchido, o de instituições capazes de pensar a região a partir de seu interior.  De fato, sem acesso ao conhecimento universal, muitas crianças amazônicas permaneciam sem encontrar Monteiro Lobato, sem atravessar o sertão com Guimarães Rosa, sem perceber a ironia luminosa de Machado de Assis e sem compreender que Pasteur transformou a medicina com ideias invisíveis aos olhos.

Cresciam sem saber de seus irmãos de outras terras, outras línguas, sem conhecer Henrique V nas palavras de Shakespeare. Sem saber que havia um mundo muito grande a ser explorado que podia ser compartilhado. Com a chegada da Universidade foram chegando copias de textos importantes, depois chegaram bibliotecas, metodologias, referências e novas perguntas. A escola deixou de ser apenas um lugar de alfabetização básica, para tornar-se uma janela aberta para o mundo.

Onde antes se aprendia apenas a medir o que era essencial, passou-se a medir também a distância entre estrelas.  Onde se herdavam apenas ofícios tradicionais, passou-se a imaginar profissões ainda inexistentes naquele lugar.  Os que estavam isolados descobriram que podiam dialogar com o planeta sem abandonar suas raízes.

Durante muito tempo, o desenvolvimento na Amazônia significou agressividade, derrubar, escavar, inundar, extrair. Era uma lógica de curto prazo, movida pela urgência econômica e pela distância entre decisão e consequência.  O conhecimento introduziu outra possibilidade: a da sofisticação inteligente.

Aprendemos que a floresta não é um obstáculo, mas um sistema complexo. Que os rios não são apenas vias de transporte, mas organismos vivos. Que a biodiversidade é um patrimônio estratégico, não um estoque descartável. Desenvolver sem devastar exigia inteligência, paciência e ciência em larga escala. Exigia compreender antes de intervir.  Exigia reconhecer que a Amazônia não era um vazio a ser preenchido, mas um universo a ser interpretado.

A universidade tornou-se o espaço onde essa nova visão pôde ser elaborada e difundida. Laboratórios substituíram improvisos; Pesquisas substituíram suposições; Planejamentos substituíram impulsos irrefletidos. Mas a contribuição mais profunda da Universidade vai muito além da técnica – É simbólica. Universidades e catedrais se aproximam como realizações do espírito humano que resistem ao tempo: erguem-se sobre fundamentos invisíveis e sustentam-se como guardiãs do que não pode perecer.

Catedrais são construções feitas para atravessar séculos. Não apenas para abrigar pessoas, mas para elevar o espírito coletivo. São obras que exigiram gerações sucessivas de construtores, cada uma delas acrescentando algo, sem que pudessem muitas vezes ver o resultado final. A Universidade Federal do Pará tornou-se, ao longo de décadas, uma catedral do conhecimento na Amazônia. De fato, a natureza intrínseca da instituição universitária partilha a experiência humana acumulada ao longo dos séculos, ao mesmo tempo em que se transforma com as conquistas que o tempo presente impõe.

Desafiando o tempo, ela continua a prover os quadros técnicos que constroem as cidades, encurtam as distâncias e educam os educadores que perpetuam as linguagens e iniciam os mais jovens na leitura e na escrita, nos esportes, nas artes e nas ciências. É de lá que provém o conhecimento que expande e preserva a vida humana. Se a Universidade puder ser comparada a uma catedral dedicada ao conhecimento, podemos atribuir à inteligência artificial uma de suas torres mais recentes – erguida não para substituir o humano, mas para ampliar-lhe o alcance. Nascida nos laboratórios universitários, alimentada pela matemática, pela lógica e pela engenharia que floresceram no seio das instituições públicas de ensino e pesquisa, ela já transforma silenciosamente a vida de milhões de pessoas.

Na área da saúde, por exemplo, algoritmos treinados em hospitais universitários auxiliam no diagnóstico precoce de tumores invisíveis ao olhar apressado, antecipam riscos cardiovasculares antes que o sintoma se manifeste, organizam prontuários complexos em segundos e aproximam populações remotas de especialistas que jamais estariam fisicamente presentes. A mesma universidade que ensinou gerações a medir estrelas agora mede padrões moleculares, imagens radiológicas e sequências genéticas com precisão inédita.

Assim, a inteligência artificial não é um milagre espontâneo da técnica: é fruto acumulado de décadas de pesquisa básica, de investimento público e de liberdade acadêmica. Ela expressa, em linguagem computacional, o mesmo impulso que nos trouxe dos rios da infância aos laboratórios da maturidade – de onde hoje monitoramos o fogo, a devastação da floresta, os rastros da contaminação e o assoreamento dos rios. O seu uso materializa assim um antigo desejo humano: compreender antes de intervir, prever para proteger, cuidar para prover no tempo futuro.

Mais recentemente, engenheiros e cientistas nascidos na catedral universitária proporcionaram acesso em tempo real às bases de dados, transformando-as em recursos compartilhados. Seu trabalho promoveu a inclusão científica, a soberania acadêmica e a possibilidade real de dialogar com o mundo com base em evidências. A partir de seus programas aplicados aos idiomas com que nos comunicamos, rompeu-se a barreira da língua, aproximando-nos uns dos outros.

Assim tem sido a Universidade, enquanto desafia o tempo, revisitando o passado, mantém o seu compromisso com o futuro, transformando-se a cada conquista.  Uma catedral sem vitrais monumentais, mas iluminada pela curiosidade humana. Sem sinos audíveis à distância, mas com um chamado silencioso ao dever de compreender o mundo, e interagir com ele com liberdade e rigor.  Ali também se formam cidadãos críticos, capazes de distinguir progresso de destruição, crescimento de desenvolvimento, riqueza de acumulação sem propósito.

Hoje, a Amazônia ocupa posição central nos debates globais sobre clima, biodiversidade e sustentabilidade. Decisões tomadas aqui repercutem em todo o planeta.  Nenhuma dessas decisões pode ser responsável sem conhecimento profundo da realidade local. As universidades amazônicas tornaram-se a interface entre a Amazônia e o mundo – traduzindo saberes tradicionais em linguagem científica, em prosa e em verso, e trazendo descobertas globais para aplicação regional.

Infraestruturas físicas envelhecem, recursos naturais podem se esgotar. Mas a formação de pessoas produz efeitos cumulativos, multiplicadores, irreversíveis.  Cada professor formado pode ajudar a formar inúmeros outros. Cada agente de saúde que completa sua formação avançada pode ajudar a salvar centenas de vidas. Cada pesquisador com as ferramentas adequadas pode ajudar a ampliar as fronteiras invisíveis do conhecimento. Para essa cadeia virtuosa continuar frutificando, a educação dos envolvidos precisa ser contínua e incluir a todos em todos os níveis e a vida inteira.

Sob essa perspectiva, a Universidade Federal do Pará é possivelmente o maior investimento humano já realizado na Amazônia brasileira.  Um investimento que não se mede em concreto edificado, mas em consciência. Não se mede em cifras, mas em possibilidades.  Se no passado a região foi vista como território a ser conquistado, hoje ela se afirma como território a ser compreendido.  E essa compreensão depende, antes de tudo, da educação das pessoas que dela se ocupam. A universidade não substitui a comunidade – ela a potencializa.  Não impõe identidades – ela amplia horizontes. Não remove raízes – ela fortalece o solo onde elas se apoiam.

A Universidade Federal do Pará é fruto do trabalho de muitas gerações, de diferentes áreas do conhecimento e de seus diversos campi, a partir dos quais novas universidades amazônicas continuam a surgir. É uma construção coletiva, erguida por todos os que aqui ensinaram, aprenderam, investigaram e serviram à sociedade amazônica. Esta cerimônia vai muito além do reconhecimento individual: é a expressão visível de um trabalho integrado, tecido ao longo do tempo por muitas mãos, ideias e afetos que não cabem em uma lista de nomes, mas que constituem, de forma silenciosa e essencial, os pilares da catedral da universidade amazônica.

Receber o título de Professor Emérito nesta instituição significa inscrever-se, de modo permanente, nessa obra coletiva – uma obra que começou antes de nós e que continuará depois de nós. Por todas essas razões, agradeço desde já, ao Magnífico Reitor e aos membros do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa e do Conselho Universitário a alegria única que a concessão do título de professor emérito, me proporcionou ao integrar-me à memória acadêmica da universidade. Ao professor Edmar Costa, meu ex-aluno e colega do tempo presente agradeço a elaboração do dossiê que deu sustentação à análise da proposição, permitindo que esta solenidade se materializasse.

Não podia ser mais afortunado nestes tempos tardios de docência e pesquisa. Se minha vida pudesse ser comparada às estações do ano, diria que o outono chegou. O outono é o tempo da colheita e da reflexão, quando se avalia o que foi semeado e o que ainda pode germinar. Como em uma árvore genealógica, a produção de conhecimento novo nas Ciências Biológicas da UFPA para quem dediquei muito do meu trabalho tem suas raízes no trabalho de muitos outros docentes pesquisadores.

A mudança paradigmática de agregar os doutores dispersos nas várias instituições para tecer um programa de pós-graduação multidisciplinar que reunisse a competência instalada em Belém foi uma decisão acertada! Seguindo o modelo implementado por Carlos Chagas Filho no Instituto de Biofísica da UFRJ, ele tornou-se a semente de vários programas de pós-graduação. Assim a genética, a biologia ambiental, a biologia de agentes infecciosos e a zoologia trilharam a partir dali seus próprios caminhos. A pós-graduação em Neurociências só se tornou possível a partir de Antônio Paes de Carvalho e João Paulo do Vale Mendes que encorajaram a renovação do Departamento de Fisiologia a que passamos a ajudar a construir. Sob a supervisão notável de Eduardo Oswaldo Cruz passou-se da concepção à ação ainda no Departamento de Neurobiologia do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá iniciamos a preparação para voltar para casa.

Com Luiz Carlos de Lima Silveira, José Luiz Martins do Nascimento e a contribuição decisiva de Manoel da Silva Filho em momentos fundamentais de nossa caminhada, lançamos muitas sementes que germinaram e agora frutificam. Outras foram plantadas em outros domínios, como as que cultivamos em busca de atender aos interesses coletivos enquanto estivemos na administração. Essas igualmente frutificaram com o trabalho sistemático de pessoas notáveis, alguns deles aqui presentes que me acompanharam na gestão e nos ajudaram a disseminar seus efeitos em cada campus da Universidade neste estado de dimensões continentais.

O exercício de cuidar da terra, regar as sementes, e acompanhar o amadurecimento das que germinaram, aqui e em outros campi, deu-nos propósito e motivação para seguir adiante e cuidar dos interesses coletivos. Apesar das turbulências que o sistema de educação, ciência e tecnologia experimentou enquanto cuidávamos dos interesses coletivos, os anos que se seguiram revelaram que as decisões de prover albergues quase vazios mas cheio de sonhos às lideranças institucionais foi acertada.

Tenho clareza e convicção de que a geração de docentes, pesquisadores que agora prossegue continuará acreditando que a educação transforma, que a ciência emancipa, que a cultura humaniza e que a universidade pública é parte de um patrimônio civilizatório insubstituível.

Se algo digno de reconhecimento permanece, entretanto, após décadas de trabalho, raramente o encontramos nas publicações ou nos cargos ocupados, mas sim na transmissão silenciosa de valores humanistas que atravessam a cultura, as ciências e as artes, e no compromisso com o bem comum.

Uma alegria ter dedicado minha vida à Universidade e através dela ter ajudado a formar professores que hoje promovem o encontro de infâncias amazônicas com Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Machado de Assis.  Uma alegria tê-las encorajado a procurar pelo mundo invisível de Pasteur através dos professores de ciências nos cursos de férias.

Preciso registrar, ao final – antes que as palavras me escapem – que, para mim, essa vida de dedicação e propósito só se tornou possível pelo trabalho sistemático e cuidadoso de Ana, a filha mais velha de Osvaldo e Dilma e a mãe de meus filhos. Ela partilhou sua infância com os lagos do Agereua e do Aimin e com seus irmãos queridos, João, Fátima, Dilminha, Osvaldinho e Dione, que me acolheram e me fizeram parte de sua alegria e empatia contagiosa. Ela sustentou o cotidiano quando as exigências do trabalho acadêmico e administrativo pareciam sem fim. Dividiu incertezas, suportou ausências, proveu segurança às crianças e celebrou conquistas como se fossem suas, enquanto me permitia enfrentar os desafios de uma vida acadêmica intensa.

Esse título é dedicado a ela e às nossas crianças.  É também dedicado aos meus sete irmãos – os que ainda estão por perto (Nazaré, Armando, Socorro, Zeca e Laurita) e os que já partiram (Argemiro e Domingos). Com eles, aprendi a conviver com os diferentes, a dividir para multiplicar e a valorizar o erro como instrumento de aprendizado. Essa equação fraterna me ensinou a fazer mais com menos, a admirar e encorajar o trabalho de todos e a explorar o mundo, que começava onde terminava a varanda de nossa casa.

Ana e eu não tivemos filhas, mas nossos filhos as escolheram e elas trouxeram suas vidas e suas famílias para junto de nós. Do amor que dedicaram aos nossos filhos vieram Cristovam, Lucas, Laura e Gael. Neles continua uma longa corrente de afetos que atravessa gerações, agora tecida pelas histórias em construção de nossos filhos e seus amores.

Se um dia meus netos me perguntarem o que fiz na vida, espero poder responder com simplicidade: servi à educação pública, à ciência e à Amazônia com tudo o que pude oferecer e me foi possível aprender.

Muito obrigado.

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TEXTO: Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Alexandre de Moraes - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

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