A Universidade Federal do Pará (UFPA) realizou nesta quarta-feira, dia 1º de abril de 2026, no Centro de Eventos Benedito Nunes, a sessão solene de outorga do título de Doutora Honoris Causa à ativista e intelectual Raimunda Nilma de Melo Bentes. A sessão reuniu autoridades, representantes de movimentos sociais, familiares e membros da comunidade.
A honraria reconhece trajetórias de impacto excepcional na sociedade. No caso de Nilma Bentes, o título consagra décadas de atuação na luta antirracista, na defesa dos direitos das mulheres negras e na promoção da justiça social na Amazônia.
A mesa de honra da solenidade foi composta pelo reitor da UFPA, professor Gilmar Pereira da Silva; pela vice-reitora, professora Loiane Prado Verbicaro; pela homenageada, Raimunda Nilma de Melo Bentes; pela superintendente de Políticas Afirmativas e Diversidade (Diverse), professora Zélia Amador de Deus; pela representante do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), professora Maria Albenize Farias Malcher; pela coordenadora da Coordenação de Diversidade e Inclusão do Instituto de Ciências Jurídicas, professora Sandra Suely Moreira Martins Lurine Guimarães; e pela representante da Clínica de Atenção à Violência, professora Maria Antonia Nascimento.

Desde a abertura, a solenidade foi conduzida em tom de reverência e celebração. O momento de maior simbolismo ocorreu durante o ato de outorga, quando foi formalizada a concessão do título. “Confirmo e outorgo, nesta data, o título de Doutora Honoris Causa para que possa gozar, de agora em diante, de todas as prerrogativas honoríficas que este título lhe assegura”, decretou o reitor da UFPA.
A cerimônia foi um espaço de discursos potentes, que evidenciaram a dimensão coletiva da trajetória da homenageada. Representantes da universidade e de movimentos sociais ressaltaram o papel histórico de Nilma Bentes na construção de políticas, organizações e mobilizações fundamentais para a população negra na região Norte.

“Hoje, a UFPA vive um marco que ultrapassa os muros da academia. Tenho a honra de conceder o título de Doutora Honoris Causa a Nilma Bentes, uma mulher cuja vida é o próprio alicerce da resistência negra e feminista na Amazônia. Nilma não é apenas uma agrônoma de formação. Ela é uma semeadora de consciência. Ela nos ensina que o saber não habita apenas as teses, mas pulsa com força nas ruas e nos quilombos”, destacou o reitor Gilmar Pereira da Silva em seu discurso. “Para mim, como primeiro reitor negro da história desta Universidade, este momento possui um simbolismo que é, ao mesmo tempo, político e profundamente pessoal. Como Nilma bem disse hoje: quem não é negro não sabe as consequências que sofremos por sermos quem somos. O preconceito nem sempre é verbalizado. Muitas vezes ele está no olhar que tenta nos dizer que este lugar não é nosso. Entregar este título não é apenas um rito acadêmico. É um ato de reparação. É reafirmar que a minha gestão está comprometida com uma UFPA que tenha a cara, a cor e a alma da nossa gente historicamente excluída”, complementou.
“A UFPA faz reparação. Nilma sempre esteve abrindo caminhos, enfrentando tudo com coragem. Ver esse reconhecimento emociona, porque é também a história de muita gente sendo reconhecida junto com ela”, disse a companheira de luta e superintendente da Diverse, Zélia Amador de Deus.
Pioneira na criação de entidades e movimentos pelos direitos da população negra e das mulheres, Nilma Bentes consolidou uma trajetória marcada pelo compromisso com a justiça social, a igualdade racial e a transformação da sociedade brasileira.






Referência nacional no movimento negro, Nilma é fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e teve participação marcante em processos históricos, como a redemocratização do país e a construção de políticas públicas voltadas à equidade racial.
Sua trajetória também inclui atuação destacada na articulação de movimentos sociais e na produção intelectual sobre racismo, gênero, ecologia e Amazônia, além de ter sido uma das idealizadoras da Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília em 2015.
O pronunciamento da própria homenageada foi um dos pontos altos da solenidade. Emocionada e com a espontaneidade que marca sua trajetória, Nilma optou por não falar do púlpito e discursou de forma descontraída, em tom de conversa, arrancando risos do público.

“Quando me falaram desse título, eu nem sabia direito o que era, fiquei até pensando se isso fazia mal com açaí”, brincou. “ Depois é que fui entender o quanto ele é importante. Muito importante. Recebo com muita emoção, porque esse reconhecimento não é só meu, é de toda uma luta coletiva”, disse durante o discurso.
A concessão do título de Doutora Honoris Causa à Raimunda Nilma de Melo Bentes foi uma iniciativa conjunta da Clínica de Atenção à Violência (CAV) e do Projeto Redes Antirracistas, ambos vinculados ao Instituto de Ciências Jurídicas da UFPA, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e o Ministério da Educação (MEC).

