A Universidade Federal do Pará (UFPA) inicia o ano de 2026 dando continuidade às ações do Movimento Ciência e Vozes da Amazônia. Uma das marcas da iniciativa, lançada em fevereiro de 2025, foi a publicação de uma nova edição da Ciência e Vozes da Amazônia, revista que tem o objetivo de ampliar a visibilidade do conhecimento científico produzido na região amazônica. A coletânea reúne artigos, relatos de experiência e reflexões que dialogam com ciência, políticas públicas, saberes tradicionais, tecnologias sociais e memória dos povos da Amazônia.
Sob o eixo “Diversidade, protagonismo e conhecimentos dos povos da Amazônia”, o conteúdo inédito reafirma o compromisso da UFPA com uma produção científica conectada à realidade local e aos desafios sociais, ambientais e climáticos do território amazônico. Entre os destaques, está o texto Olhos da Amazônia: ciência amazônida no monitoramento por satélites, de Luis Sadeck, Pocas Pires e Alessandra Gomes, que evidencia o papel estratégico do INPE-Amazônia no monitoramento do desmatamento por meio dos Sistemas Deter e TerraClass.
A coletânea também divulga uma análise sobre políticas climáticas com o artigo Desafios e oportunidades do REDD+ no estado do Pará, assinado por Caroline Leite Giordano, Ester Cardoso dos Santos, Paulo Sérgio Mendonça Fonteles de Lima e Robson Costa dos Santos. O texto discute a construção do Sistema Jurisdicional de REDD+ no estado e suas conexões com estratégias de repartição de benefícios e formação acadêmica.
Já o financiamento climático é tema do artigo O sistema financeiro e a crise climática: pode o financiamento combinado (blended finance) contribuir para a mitigação e adaptação do problema?, de Maria de Nazaré Caetana Marques e Rosinaldo Antônio Lima. A reflexão aborda um dos principais entraves ao enfrentamento da crise climática, a escassez de recursos, e destaca experiências desenvolvidas na Amazônia voltadas às populações economicamente mais vulneráveis.



Por sua vez, a integração entre ciência e saberes tradicionais ganha centralidade em Nas águas das terras indígenas da Amazônia, a biodiversidade une a pesquisa e o conhecimento tradicional, de um coletivo de jovens pesquisadores da UFPA. O artigo relata uma pesquisa participativa realizada na Terra Indígena Panará, no sul da Amazônia Oriental, na qual o povo indígena atuou como protagonista em todas as etapas do processo científico, reforçando a importância de uma ciência ética, inclusiva e socialmente comprometida.
A dimensão da memória e da resistência indígena está presente em Memórias Tapayuna à beira do Rio Xingu: esperançar o retorno à terra ancestral, de Aumeri Carlos Bampi. O relato aborda os impactos históricos da desterritorialização dos povos indígenas, mesclando lamento e esperança na luta pelo retorno ao território ancestral.
O artigo Tecnologia Social e Tecnologia Ancestral da Amazônia no saber-fazer da cerâmica, de Artur da Silva Ribeiro e Helena Pinto Lima, apresenta o Projeto Replicando o Passado, desenvolvido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, em parceria com ceramistas do Distrito de Icoaraci, em Belém (PA). Enquanto isso, outro trabalho presente na coleção aborda um dos problemas históricos da região: o saneamento básico. No artigo Tecnologias Sociais como forma de melhorar o saneamento básico na Amazônia, José Otávio Oliveira Mendes e colaboradores analisam experiências de tecnologias sociais voltadas ao abastecimento de água em comunidades tradicionais.
A bioeconomia também ganha espaço com Bioeconomia do tucupi como potencialidade socioeconômica no município de Bragança, Amazônia, assinado por Maria do Bom Conselho Lacerda Medeiros, Artur da Silva Ribeiro, Rosa de Nazaré Paes da Silva e Maria das Graças Ferraz Bezerra. O texto evidencia o papel do tucupi como produto estratégico da bioeconomia amazônica.
Fechando o número, o artigo Produção acadêmica e a COP 30: reflexões sobre pesquisas climáticas na Amazônia, de Eduardo da Cruz Costa e Yomara Pinheiro Pires, apresenta uma análise de estudos publicados no primeiro volume da Coleção digital Ciência e Vozes da Amazônia COP-30, da Universidade Federal do Pará. Os autores discutem pesquisas que tratam das questões climáticas e ambientais, com atenção especial aos impactos da extração e da exploração territorial sobre a biodiversidade e os povos originários, apontando como esses trabalhos podem contribuir, fundamentados em bases empíricas, para os debates da 0.
A edição reúne diferentes olhares e áreas do conhecimento e destaca a importância da produção acadêmica comprometida com a realidade amazônica, evidenciando que ciência, cultura, tecnologia social e sustentabilidade caminham juntas na construção de alternativas para o futuro da região.

