Zélia Amador de Deus, uma vida que criou raízes

Um dos gestos mais recentes de Zélia Amador de Deus na Universidade Federal do Pará (UFPA) foi plantar uma árvore. Não uma árvore qualquer. Um baobá. Cercada por amigos e familiares, Zélia viu aquela pequena muda ser colocada na terra da Universidade à qual dedicou mais de cinco décadas de sua vida.

Talvez poucas imagens pudessem sintetizar, de maneira tão delicada, a trajetória da professora. O baobá é uma árvore conhecida por atravessar o tempo. Associado à ancestralidade e à memória de povos africanos e afrodescendentes, guarda histórias de gerações e simboliza permanência, resistência e continuidade.

Zélia também atravessou o tempo.

Descansou nesta terça-feira, 8 de setembro, aos 76 anos. O velório será realizado no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, a partir das 23 horas. A Universidade Federal do Pará decretou luto oficial de três dias em homenagem à superintendente de Políticas Afirmativas e Diversidade da UFPA. 

Fotografia registra a professora Zélia Amador de Deus em frente ao pórtico de entrada da Universidade Federal do Pará.

Trajetória na UFPA – Em 1971, Zélia Amador de Deus ingressou no curso de Letras da UFPA. Tinha início uma relação que atravessaria os 55 anos seguintes. A UFPA que aquela jovem negra encontrou era muito diferente da Universidade de 2026. E Zélia participaria intensamente das transformações ocorridas entre uma e outra.

Primeiro, porém, veio a arte. Nos anos 1970, o teatro tornou-se parte essencial de sua formação. Em 1976, com Margareth Refkalefsky e Walter Bandeira fundaram a Companhia de Teatro Cena Aberta. Zélia foi Catirina em Coronel de Macambira, em 1972. Interpretou Suely em Quarto de Empregada, em 1976. Atuou, dirigiu e fez do palco um espaço de criação e expressão.

O Brasil vivia a Ditadura Militar. Enquanto estudava e trabalhava, Zélia também participava da militância política. Arte, corpo e política começavam a se encontrar. Em 1974, concluiu a Graduação em Letras. Em 1978, retornou à Universidade em outra condição: Zélia tornou-se professora da UFPA.

A sala de aula seria apenas um dos lugares ocupados por Zélia dentro da Universidade. Professora ligada às Artes, ensinou Teatro, Estética e História da Arte. Fez parte do coletivo de artistas que participou da construção do Núcleo de Arte, estrutura que está na origem do atual Instituto de Ciências da Arte (ICA), e desenvolveu atividades de ensino, pesquisa e extensão que contribuíram para a formação de gerações de artistas e pesquisadores.

Enquanto construía sua trajetória acadêmica e artística, Zélia ampliava também sua atuação política. Em 1980, esteve entre as pessoas que fundaram o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que se tornaria uma referência do movimento negro na Amazônia.

Arte, universidade e movimento negro não seriam caminhos separados. Na vida de Zélia, eles se encontrariam continuamente. Na UFPA, sua atuação alcançou também a gestão. Entre 1989 e 1993, dirigiu o então Centro de Letras e Artes (CLA). De 1993 a 1997, foi vice-reitora da Universidade Federal do Pará.

Fotografia registra a professora Zélia Amador de Deus.

Sua passagem pela gestão superior também deixou uma marca que permanece na vida cultural de Belém. Zélia esteve envolvida na idealização do Auto do Círio, projeto de extensão da UFPA que leva às ruas diferentes linguagens artísticas em diálogo com manifestações da cultura popular e se consolidou como uma das mais longevas experiências de extensão cultural da Universidade.

A ascensão aos espaços de poder, entretanto, não apagou o racismo. Sua presença nesses lugares carregava, portanto, um significado que ultrapassava a trajetória administrativa. Uma mulher negra ocupava espaços que, durante muito tempo, não haviam sido imaginados para mulheres negras.

Zélia ocupou.

E trabalhou para que outras pessoas negras também pudessem ocupar.

Fotografia da professora Zélia Amador de Deus durante um evento. ela sorri e fala ao microfone.

A luta como forma de vida – Vieram décadas de militância, articulação política, produção intelectual e participação em espaços nacionais e internacionais de enfrentamento ao racismo. Em 2001, Zélia integrou a representação brasileira na III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul.

De volta ao Brasil, intensificou a atuação pelas políticas de ação afirmativa. Na UFPA, participou da criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (Geam) e das discussões que levariam a Universidade à adoção de políticas de reserva de vagas.

As mudanças que ajudou a construir puderam ser testemunhadas pela própria Zélia. Em entrevista publicada pelo Jornal Beira do Rio, em 2020, ela fez um balanço direto dessa transformação: “Não tenho dúvida de que as políticas de ação afirmativa mudaram o perfil da UFPA”.

Não era apenas uma observadora daquela mudança. Zélia estava entre as pessoas que haviam trabalhado para produzi-la.

As teias de Ananse – A militante nunca se separou da intelectual. Zélia transformou as questões que atravessaram sua vida em reflexão, pesquisa e produção de conhecimento. Em 2008, concluiu o Doutorado em Ciências Sociais na própria UFPA.

Uma imagem ocupou lugar especial em seu pensamento, Ananse. Presente na tradição dos povos fanti-ashanti, a figura associada à aranha e à capacidade de tecer histórias e redes ofereceu à Zélia uma forma de pensar a diáspora africana e as estratégias de resistência construídas por mulheres e homens negros.

Em 2019, publicou Ananse tecendo teias na diáspora: uma narrativa de resistência e luta das herdeiras e dos herdeiros de Ananse, obra relacionada à pesquisa desenvolvida em seu doutorado.

A imagem parecia também contar algo sobre sua própria vida. Zélia teceu redes. Entre a Universidade e o movimento social. Entre a arte e a política. Entre a Amazônia e outras partes do Brasil e do mundo. Entre aqueles que vieram antes e aqueles que viriam depois.

Professora Emérita – Também em 2019, a UFPA iniciou o processo de concessão do título de Professora Emérita a Zélia Amador de Deus. A homenagem reconhecia uma trajetória construída nas Artes, na docência, na pesquisa, na gestão universitária e na defesa da diversidade e da inclusão.

A concessão carregava também um significado histórico, afinal Zélia se tornou a primeira mulher negra a receber o título de Professora Emérita da Universidade Federal do Pará. A cerimônia de outorga ocorreu em março de 2020, com homenagens de movimentos sociais, de estudantes indígenas, quilombolas e africanos.

Fotografia registra a professora Zélia Amador de Deus, sorridente, em uma cadeira de rodas de metal. Ela segura uma placa que informa: BAOBÁ - MALVACEAE - HOMENAGEM À PROFESSORA DOUTORA ZÉLIA AMADOR DE DEUS. Ao lado do texto, há o desenho de uma árvore. Em primeiro plano, na foto, também é possível observar galhos de uma pequena árvore.

Quase meio século separava aquele reconhecimento da jovem que ingressara no curso de Letras em 1971. No intervalo entre as duas cenas, cabia uma vida inteira. A atriz que ajudou a construir o lugar das Artes na Universidade; a professora que formou gerações; a militante que ajudou a construir o movimento negro paraense; a gestora que chegou à Vice-Reitoria; a intelectual que transformou racismo, diáspora e resistência em produção de conhecimento; a ativista que participou das disputas que ajudaram a modificar o perfil da própria UFPA.

O baobá de Zélia ainda é uma árvore pequena. Precisará de tempo para crescer e criar raízes.  Como Zélia, há muito tempo, criou as suas.

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TEXTO: Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Alexandre de Moraes, Heloísa Torres e Vinicius Gonçalves - Ascom/UFPA

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