Pioneira da Física na UFPA, Carmelina Kobayashi, é homenageada por estudantes e docentes

O Polo UFPA do Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física promoveu, na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, homenagem à professora Carmelina Nobuko Kobayashi, licenciada em Física pela UFPA, turma de 1968, a primeira mulher licenciada pela Faculdade, criada em 1965. A cerimônia também contou com uma mesa redonda com a participação das professoras Maria da Conceição Gemaque, Simone Fraiha, Silvana Perez e da discente Emanuelly Lopes do Nascimento, sobre suas relações com a Física. Aos 83 anos, a professora Carmelina Kobayashi recebeu o carinho e o reconhecimento de alunos e professores de Física, muitos dos quais seus ex-alunos.

Filha de Mazumi Kobayashi e Atsuko Kobayashi, casal de imigrantes japoneses que chegaram à Amazônia na primeira metade do século passado, a primeira física graduada pela UFPA nasceu em Parintins, Amazonas, em 30 de junho de 1942, mas vive no Pará desde os primeiros dias de vida, inicialmente em Juruti, na região Oeste. “Aprendi a escrever as primeiras palavras dentro de casa, com minha mãe. Ela tinha muito conhecimento, sabia uma coisa que poucos japoneses de Juruti sabiam, o alfabeto latino, mesmo que tenha aprendido o português de ouvir os caboclos da região falarem”, lembra Carmelina Kobayashi.

Sem opção de escola no local, a menina foi mandada para Óbidos, cidade mais próxima de Juruti, onde estudou até a quarta série do curso primário, atual ensino fundamental, no colégio das freiras. Já naquela época queria continuar os estudos para fugir ao pensamento corrente da época, segundo o qual as mulheres eram preparadas para o casamento. Sobre isso, recorda uma advertência do pai a todas as filhas: “nada de arranjar logo marido e depois ficarem cheia de filhos”. Sem poder continuar os estudos em Óbidos, ela foi mandada para Santarém, onde estudou o curso ginasial no Ginásio Santa Clara, depois da aprovação na admissão que lhe deu o direito de pular a quinta série do primário.

Após a conclusão do ginasial, os pais a mandaram para continuar os estudos em Belém, onde a irmã mais velha residia e cursava a faculdade de Direito. Ambas moraram numa república. A jovem Carmelina queria estudar no Colégio Paes de Carvalho, uma referência de ensino na época, mas as vagas eram poucas e muito requisitadas. Por essa época, recorda, houve um concurso nacional para concessão de bolsa de estudos para estudantes.

“Fui aprovada e pude, então, me matricular no curso científico do Colégio Santa Rosa, onde fui aluna do professor José Maria Filardo Bassalo. Ele era ainda estudante de Engenharia Civil e ministrava a disciplina Física. Logo percebi que se tratava de uma disciplina que exigia muitos estudos em casa, mas poucos faziam isso. O resultado é que a maioria da turma tirava notas vermelhas. Não tive maiores problemas porque era muito dedicada”, conta Carmelina, ressaltando que Ótica foi a parte da Física que mais a fascinou, então.

Faculdade – No ano de 1965, a UFPA realizou o primeiro exame de acesso a um curso superior de Física, recém-criado, cujas atividades acadêmicas estavam sob responsabilidade do Núcleo de Física e Matemática (NFM). Naquele tempo, só havia vestibular para qualquer curso, se um número mínimo de candidatos fosse alcançado. Esse número não foi alcançado pelos cursos de Física e Química. A solução foi juntar os candidatos dos dois cursos na Licenciatura em Física, com a promessa de que no vestibular seguinte, os alunos já aprovados e que desejassem estudar Química seriam somados à nova turma de calouros. Carmelina queria estudar Química.

Aprovada no primeiro vestibular, ela desistiu da ideia durante uma aula prática em que se sentiu mal ao inalar o cheio forte de uma substância usada no laboratório. Foi, então, que optou definitivamente pela Física. Da turma que entrou naquele ano, apenas quatro alunos levaram o curso até o final. Havia uma outra mulher na turma, Ana Emília Bastos. Os outros colegas de Carmelina eram José Maria Souza e Félix Nabor. Estes, no entanto, só concluíram a licenciatura no ano seguinte.

 “Não há erro em afirmar que as mulheres foram as fundadoras do curso de Física na UFPA “, afirma, com um sorriso discreto estampado no rosto. Na verdade, elas fundaram a graduação em Física em toda a região Norte. Em seus primórdios, a faculdade de Física funcionava na antiga avenida Independência, atual Magalhães Barata, entre 9 de Janeiro e 3 de Maio.

No início, lutando com a falta de laboratórios e instrumentos, o curso era bastante prático. Carmelina lembra de um paquímetro, um micrometro e um instrumento de raios catódicos. Os professores não eram formados em Física, mas tinham notável saber na ciência. Ela cita entre eles os professores José Seguins, Paulo de Tarso, Orlando Moura, Fernando Vieira, Leopoldino Ferreira, Curt Siqueira e José Bassalo, que foi o primeiro a cursar mestrado e doutorado na Física.

“É absolutamente necessário saber matemática para ser um físico, é uma espécie de pré-requisito. Tanto é que as primeiras aulas que temos são de matemática. Antes de começar dar aula de Física, a gente tem que dar aula de matemática. Se você quiser aprender física avançada, terá que saber matemática avançada”, lembra a professora pioneira. Após o ingresso na carreira docente da faculdade, ela se identificou mais com o ensino de eletromagnetismo, talvez porque seus melhores alunos fossem do curso de Engenharia Elétrica, lembra.

Um grande impulso ocorreu quando a Faculdade de Física recebeu um vasto conjunto de equipamentos, por meio de convênio entre o CNPq e a República Federal da Alemanha, durante a gestão do reitor Aloysio Chaves. Mas, o novo laboratório de Física da UFPA só chegou quando Carmelina já era docente da Faculdade. Coube aos professores Orlando Moura e Leopoldino Ferreira serem escolhidos para ir à Alemanha, para treinamento sobre o uso dos componentes. Carmelina teve papel de realce ao participar da instalação e na assistência ao professor alemão Thomas Scheller na tradução e adaptação dos manuais que acompanharam os equipamentos.

Magistério – A docência está presente na vida de Carmelina Kobayashi desde quando cursava o ginasial em Santarém. Ela se inscreveu para ser professora de alfabetização numa Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo. “Foi um trabalho duro, apesar dos alunos serem todos crianças”, recorda. “É que as aulas eram muito longe, no meio do mato. Eu andava muito para chegar na escola. Não havia rua asfaltada, nem ônibus, a gente fazia tudo a pé”.

Quando era universitária, ela foi professora no Colégio do Carmo, em Belém, uma experiência que não lhe trouxe boas recordações. O Carmo era um colégio masculino. Quando ela começou a ministrar aulas de Física, sentiu que os alunos a rejeitavam de forma acintosa. Eles não aceitavam uma mulher dando aulas de Física. Ela sintetiza o que ocorreu: “os alunos não prestavam atenção às minhas aulas e nem estudavam. Logo na primeira prova, houve muitas notas vermelhas. Fui chamada à direção. Expliquei o que estava acontecendo e pedi demissão, antes mesmo de ter minha carteira profissional assinada”. Essa experiência foi muito diferente do que ocorreu quando trabalhou nos colégios Souza Franco e Magalhães Barata. 

Antes de entrar para o quadro docente da UFPA, ela foi vítima de outro caso de preconceito contra a mulher, desta vez quando se preparava para trabalhar como física na Icomi, uma mineradora que atuava na Serra do Navio, no Amapá. Ainda, em Belém, na fase dos exames médicos para admissão, ela foi informada que seu salário corresponderia à metade do salário dos engenheiros. Isso a desagradou profundamente, como explica: “passei o curso básico inteiro na UFPA dando cola para os colegas da engenharia. Agora ia ganhar metade do que eles ganhavam. Não aceitei, desisti de viajar”.

Carmelina Kobayashi entrou para o quadro docente da UFPA em 1º de março de 1970. Esteve na ativa durante 23 anos até se aposentar, em 1993. Mas não parou, tendo sido recontratada até 1997. A recontratação era, então, possível porque o governo não liberava vaga para concurso. “Nestes 27 anos fiz muitos amigos na universidade. Posso dizer, com orgulho, que fiz toda a minha carreira docente numa instituição pública, de ensino gratuito de qualidade. E gostei muito de ter atuado nela”, finaliza.

TEXTO: Walter Pinto - Beira do Rio/Ascom Institucional da UFPA

FOTOS: Manoel Januário Neto

Relação com os ODS da ONU:

ODS 4 - Educação de Qualidade

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