A resistência de povos originários do Brasil, como indígenas e quilombolas, conta com uma atuação decisiva das mulheres, como na transmissão de saberes ancestrais às novas gerações e no enfrentamento de situações de risco aos direitos das comunidades a que pertencem. Esse processo ganha maior envergadura quando contado por textos assinados por integrantes dessas próprias comunidades, mestrandos e doutorandos no campo do Direito. É o que o público encontra nas páginas do livro “Ancestralidade e Tradição – a hora e a vez de mulheres indígenas e quilombolas”, lançado pela Mórula Editorial e que conta a saga de sete líderes femininas na transformação da realidade de seus povos em estados do Brasil.
O livro foi organizado pelos professores e pesquisadores Jane Felipe Beltrão, Almires Martins Machado e José Heder Benatti. Esses docentes integram a disciplina Teoria dos Direitos Humanos do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará (PPGD/UFPA). Os autores dos capítulos da obra são estudantes e pesquisadores vinculados ao PPGD/UFPA. Esse programa foi pioneiro em adotar políticas afirmativas na UFPA, incluindo o ingresso e permanência de pessoas indígenas, quilombolas, pessoas trans e servidores da Universidade no ensino superior.
A obra insere-se no projeto “Diversidade étnico-racial e os direitos territoriais na Amazônia: uma experiência clínica de direitos humanos e os povos indígenas e quilombolas”. O projeto é desenvolvido pela Clínica de Direitos Humanos da Amazônia (CIDHA/UFPA) e financiado pela Climate and Land Use Alliance (CLUA) e pela Ford Foundation.
“As trajetórias aqui reunidas demonstram à sociedade que políticas afirmativas não se encerram, simplesmente, na abertura de vagas, mas se concretizam na construção de um espaço de permanência, diálogo e reconhecimento. Ao tornar visíveis as experiências dessas pessoas, povos, grupos e comunidades, o livro reafirma a missão do PPGD de ser não apenas um núcleo de excelência acadêmica, mas um centro efetivo de transformação social”, pontua o professor Breno Baía Magalhães, coordenador do PPGD/UFPA.
O público leitor confere perfis de mulheres que chamaram para si a responsabilidade pela existência de seus povos em contextos adversos: “A erva cura, o estudo transforma: o legado de Sofia Lima dos Santos”, por Flávia Silva dos Santos; Yvy Wera: terra que brilha”, de Amirele Porto Machado; “Bitor, era como a chamavam Maria Raimunda”, de Pricila Aroucha Pinheiro; “Kátia Tônkyre: “Tu foges, para contar a história do povo”, de José Ubiratan Sompré; “Marilaque Rodrigues Cabral: mulher quilombola de Araquembaua”, de Sâmela Atrylly Lisboa Ramos; “Ancestralidade e Território: uma visão que vem de dentro do Quilombo Alto Itacuruçá”, de Alex de Souza Maciel, e “Maria Auxiliadora Maciel dos Santos, mulher de coragem”, por Klébson Salgado Glória.
Todas são “mulheres de múltiplas dimensões e reconhecidas pelas transformações educacionais que empreenderam, atuando na defesa do território e lutando pela igualdade e identidade dos povos tradicionais, valorizando as ações de saúde e a escolaridade de seus descendentes”, como ressaltam os professores organizadores do livro.
“As lideranças que emergem das narrativas possuem semelhanças entre si. São líderes de respeitabilidade reconhecida pelos coletivos/comunidades, responsáveis pelo encaminhamento de seus descendentes, cujos exemplos são repetidos cotidianamente”, acrescentam os docentes.
Novos Horizontes – Isso fica evidente logo no capítulo um: “A erva cura, o estudo transforma: o legado de Sofia Lima dos Santos”, de autoria de Flávia Silva dos Santos. A autora fala da resistência cultural do Território Quilombola Rio Genipaúba no Pará, no município de Abaetetuba (PA), cujas primeiras famílias chegaram a essa área ainda no século XIX. O fio condutor da narrativa é a liderança maior, Tia Sofia, uma mulher carismática que arrastava seus companheiros para a resistência. Essa resistência, como prezava Tia Sofia, a partir dos estudos.
Em “Yvy Wera: terra que brilha”, texto de Amirele Porto Machado, os leitores (as) conferem a trajetória de Kunhã Redyiju, cujo nome civil é Claudilene Gomes. Embora não saiba onde nasceu, ela se considera pertencente ao coletivo da Reserva Indígena de Dourados (RID), no Mato Grosso do Sul. Kunhã Redyiju morou em outras aldeias, mas vive desde 2017 na retomada Yvy Wera que abriga povos os Kaiowá e Guarani.
Sem ter frequentado bancos escolares com seus pais, lideranças tradicionais, Kunhã tornou-se guardiã dos conhecimentos ancestrais Guarani e Kaiowá. Além de líder política, é uma Nhãdesy, liderança religiosa que possui o reconhecimento de seus pares.
Outra narrativa sobre o protagonismo feminino na Amazônia surge no terceiro capítulo: “Bitor, era como a chamavam Maria Raimunda”. Quem conta sobre a liderança de Bitor em prol do Quilombo Os Paulos, no município de Matinha, no Estado do Maranhão, é a neta dela, Pricila Aroucha Pinheiro. Para isso, Pricila mergulhou fundo em uma pesquisa com uma rede de interlocutores (as).
O público também conhece no livro a liderança de Kátia Tônkyre. O condutor dessa narrativa é o pesquisador José Ubiratan Sompré, que assina o texto “Kátia Tônkyre: ‘tu foges, para contar a história do povo’”. Filha de Hõpryre Rônoré Jopikti Payaré, grande líder Akrãtikatêjê (grupo Timbira) que resistiu e defendeu seu povo quando da Construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará, e, mesmo depois do alagamento do território de seu povo, continuou a luta na Justiça.
Em 2011, a estatal Eletronorte foi obrigada a indenizar esse povo indígena com a aquisição de uma terra para compensar a expropriação do território violado. Essa vitória do povo Akrãtikatêjê somente foi de fato confirmada em 2021, – 10 anos após a primeira decisão favorável ao povo dada pelo Tribunal Federal Regional (TRF1) em 2011– quando, então, a terra foi entregue aos cidadãos indígenas. O líder Payaré faleceu em 2014, mas sua filha Tônkyre Akrãtikatêjê ((Kátia Silene Valdenilson), tornou-se cacica do povo na aldeia Akrãtikatêjê, na Reserva Indígena Mãe Maria, sendo a partido de então liderança incansável e respeitada dentro e fora desse território.
Luiza de Marilaque Rodrigues Cabral, líder quilombola de Araquembaua, no Município de Baião, no nordeste do Pará, incentiva os jovens desse território a estudarem, com foco no desenvolvimento socioeconômico da área. Marilac tem lastro para isso. Como relata Sâmela Atrylly Lisboa Ramos, no capítulo “Narrativa de uma mulher Quilombola de Araquembaua”, essa líder´ é reconhecida por compartilhar o conhecimento ancestral e por se dedicar aos ensinamentos em diversas áreas, em sintonia com a defesa do território e a promoção a ampliação dos conhecimentos necessários ao coletivo.
A resistência dos povos quilombolas no Brasil conta com uma trajetória de luta de uma “quilombola de fé”. É o que conta Alex de Souza Maciel em “Bella Pinheiro: uma visão que vem de dentro do Quilombo Itacuruçá Alto”. Bella absorve os ensinamentos de seus antecedentes na comunidade na região das Ilhas de Abaetetuba, no Pará, e, então, torna-se uma propagadora desses conhecimentos aos descendentes, ou seja, na defesa da cidadania e identidade do quilombo.
“Nós somos um território do campo, um território rural, mas vivemos a cada dia mais de uma forma urbana. Mesmo não estando na cidade, mesmo não morando na cidade, mas a tecnologia, as mídias, tudo chegou aqui no território. E isso foi mudando a configuração do modo como nós vivíamos. Uma coisa que eu esqueci de citar no meu tempo, que era muito comum, à tarde irmos à casa dos nossos vizinhos, ou os vizinhos virem à nossa casa, passar a tarde toda depois que chegava do trabalho, tomar um banho, para cada vizinho conversar. Passava metade da noite conversando, e depois cada um ia para a sua casa”, conta Bella ao seu entrevistador.
Essa postura de resistência é também verificada em Maria Auxiliadora Maciel dos Santos, líder política e espiritual que atua na perpetuação das tradições quilombolas. No texto de Klébson Salgado Glória – “Maria Auxiliadora Maciel dos Santos, Mulher de Coragem” -, é mostrado como essa líder contribuiu para a transformação da comunidade quilombola de Caldeirão, no município de Salvaterra (no Marajó, norte do Pará) de um lugar marcado pela violência contra seu povo em um território de esperança e construção de identidade desse povo negro.
O livro “Ancestralidade e Tradição – a hora e a vez de mulheres indígenas e quilombolas“ funciona como um convite a leitores (as) de idades diversas a seguirem, por meio da leitura e reflexões, as trilhas abertas por essas lideranças, trilhas essas acessíveis graças ao empenho de estudantes e pesquisadores vinculados ao PPGD-UFPA. Pois, como assinala o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, sobre a obra: “Poderosa narrativa que traz as vozes de mulheres fortes. Narrativa construída pela geração que, via políticas afirmativas, chega à Universidade Federal do Pará. Geração que reconhece os ensinamentos de luta pelos direitos étnicos e racialmente diferenciados de suas lideranças que durante séculos foram invisibilizados. Os autores informam quem são as mulheres importantes para seus coletivos e criam histórias de ‘encantes’ que auxiliam a construir sociedades plurais”.
Acesse o livro: https://morula.com.br/produto/ancestralidade/