Comemorado no dia 22 de março, o Dia Mundial da Água foi uma data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, com o propósito de levantar discussões, ações e reflexões a respeito desse recurso que é essencial à vida.
No Brasil, sobretudo na região amazônica, os recursos hídricos são abundantes. Segundo o Instituto Trata Brasil, o país concentra 12% de toda água doce do planeta, o que o coloca entre os países com maior disponibilidade hídrica. Tratando-se das regiões brasileiras, o Norte detém aproximadamente 68,5% dos recursos hídricos disponíveis em território nacional.
Apesar disso, cerca de 36 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, é o que revela o Ranking de Saneamento de 2025 do Instituto Brasil. Antes de chegar às residências, a água deve passar por processo de captação, tratamento e distribuição. No entanto, a falta de investimentos em infraestrutura e tecnologia é um obstáculo que impede que esse recurso chegue a parte da população, conforme explica o pesquisador e docente da Faculdade de Oceanografia, do Instituto de Geociências, Vinícius Kutter.
“Na Amazônia, a água é abundante, mas precisa de um tratamento prévio para consumo humano. Dentre os obstáculos, eu destacaria o custo operacional e acesso a novas tecnologias. Nas áreas urbanas, existe um custo significativo para construção e manutenção de redes de distribuição e perfuração de poços de captação de água subterrânea. Nas áreas rurais, apesar de existirem diversas iniciativas como os projetos “Água+Acesso” e “Amana Katu”, estes não possuem financiamento suficiente para atender à grande demanda”, avalia Kutter.
Na região Norte, segundo o Ranking de Saneamento de 2025, um dado chama atenção: a precariedade do saneamento básico. Os números revelam que, em cinco das sete capitais, a média de atendimento à água (64,2%) é inferior à média nacional (83,1%). Em relação ao tratamento e coleta de esgoto, a situação é ainda mais preocupante. Apenas 23,4% do esgoto é tratado e 17% é coletado.
A ausência de saneamento básico adequado faz com que o rio seja o principal local de despejo de esgoto, contaminando a água e o meio ambiente. Esse cenário é alarmante para a saúde da população, principalmente para comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas que são os mais afetados já que dependem do rio para pesca, banho e atividades cotidianas.
“A falta de saneamento traz um impacto silencioso à saúde humana. A poluição dos esgotos acaba por contaminar todos os seres vivos dos rios, incluindo pescados que usamos na nossa alimentação, além de trazer condições que favorecem a proliferação de doenças de veiculação hídrica, causadas pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados”, explica o pesquisador.
Urgência climática – Apesar da grande disponibilidade hídrica no Brasil, é importante destacar que, se não houver medidas efetivas que mitiguem a mudança climática no planeta, esse recurso pode se tornar impróprio para consumo, escasso em determinadas regiões e gerar grandes problemas em outros, é o que ressalta o pesquisador em Oceanografia.
“A mudança climática já é uma realidade e pesquisas indicam que a frequência de eventos extremos deve se intensificar nos próximos anos. Eventos extremos de secas, por exemplo, podem levar à salinização de poços de captação de água subterrânea, como é relatado pela população da ilha de Algodoal no período de verão. No cenário oposto de grandes enchentes a grande quantidade de “lama” e drenagem das cidades e áreas agrícolas pode transportar grande quantidade de poluição de esgoto, lixo e agrotóxicos para os rios”, alerta o docente.
Questionado sobre quais políticas são necessárias para mitigar esses problemas, Kutter afirma que é fundamental investir na ciência e no planejamento estratégico.
“Primeiramente, investimento em pesquisa. É preciso ter conhecimento do recurso para conseguir planejar uma gestão adequada. Segundo, planejamento e obras que permitam que a população tenha segurança de acesso à água durante estes eventos extremos”, finaliza.
