A atriz Dira Paes entrou no Centro de Eventos Benedito Nunes ao som de “Andança” e o auditório, em uníssono, cantou junto com ela. Na manhã da última quinta-feira, 07 de maio, a abaetetubense foi conduzida em cortejo por familiares até o palco onde recebeu, do reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gilmar Pereira da Silva, o título de Doutora Honoris Causa.
Diante do certificado, Dira não escondeu a emoção. Com os olhos marejados, ela contemplou o documento como quem reconhece, naquele papel, mais de 40 anos de arte, resistência e Amazônia. Também diretora e apresentadora, Dira é a terceira mulher a receber a mais alta honraria da UFPA e a primeira das artes cênicas. Familiares, estudantes, autoridades, artistas e mestres da cultura popular acompanharam a cerimônia que foi emoção do início ao fim.

Em seu discurso, o reitor Gilmar Pereira da Silva ressaltou o que a homenagem representa para a universidade. “Hoje, a Universidade Federal do Pará se reafirma como uma instituição plural, porque reconhece a diversidade dos saberes, das linguagens e das formas de produzir conhecimento; e singular, porque se enraíza na Amazônia, em sua realidade concreta, em seus desafios históricos e em sua potência criadora. É nesse encontro que a trajetória de Dira Paes se revela com tanta força”, declarou.

“A arte dentro do projeto educacional nos permite pensar além da nossa realidade e conceber mundos com mais inclusão, empatia e alegria. Essa é a potência transformadora que uma universidade não pode ignorar. Ciência, arte, cultura e democracia são valores inseparáveis e igualmente urgentes”, disse a vice-reitora Loiane Prado Verbicaro.
Além do reitor e da vice-reitora, compuseram o dispositivo de honra da solenidade a diretora adjunta do Instituto de Ciências da Arte Adriana Valente Azulay; a coordenadora do grupo de pesquisa em mulheres e crítica de cinema Maria Luzia Miranda Álvarez e a professora doutora em cinema e audiovisual Jorane Ramos de Castro.
Ecleidira Maria Paes, mais conhecida como Dira Paes, já é parte do imaginário popular brasileiro. A performance da abaetetubense no cinema, no teatro e na televisão, como atriz, diretora e produtora é longa e muito elogiada. Em atividade desde 1985, quando, ainda adolescente, protagonizou a produção anglo-americana “Floresta das Esmeraldas”, Dira já acumula mais de 40 anos de carreira artística e múltiplas premiações, incluindo três Grande Otelo e dois APCA.

“A longa e profícua performance da Dira Paes no cinema, no teatro e na televisão, como atriz, diretora e produtora, se soma ao seu exemplo de mulher e amazônida, que atua com potência, firmeza, coragem, perseverança, com um compromisso histórico, radicalidade, ética, política que são refletidos em décadas de lutas em prol da proteção ambiental, da democracia, dos direitos humanos e a partir do debate público da denúncia e da viabilidade, da desigualdade estrutural e da violência sofrida pelos povos historicamente marginalizados, em especial, as populações tradicionais da Amazônia. Dira, a tua presença hoje entre nós, aqui na UFPA, nos alegra e nos honra, pois coloca a arte paraense no meio de um panorama da arte internacional”, destacou Jorane Ramos de Castro, professora do curso de cinema e audiovisual, durante a cerimônia.
Conquista Familiar – A família Fonseca Paes também esteve presente em diversos momentos da cerimônia, desde o cortejo até a paramentação da homenageada, quando irmãs, marido e filhos subiram ao palco para entregar à Dira suas vestes talares e insígnias acadêmicas correspondentes ao título de Doutora Honoris Causa.

“A Dira é um exemplo de determinação, de inteligência e de disciplina. Ela é uma mulher completa. Desde cedo, ela buscou a excelência em sua profissão. Ela também é uma pessoa igual a todos nós: brincalhona, engraçada. E ela sempre foi, desde pequena, alguém que nutre um respeito incrível pela natureza e pelas causas do povo”, contou Eneida Paes, irmã da protagonista de Três Graças. Eneida foi uma das convidadas a discursar no palco e aproveitou a ocasião para narrar partes menos conhecidas da jornada de Dira, como o nascimento precoce da atriz, em meio a uma viagem de família, e as suas aventuras antes da fama, durante a infância e adolescência.
Minutos antes da cerimônia, Mani Paes, sobrinha da homenageada, também partilhou histórias vividas com a tia. “É uma emoção muito grande ver a minha tia Dira recebendo um título dessa magnitude, porque os meus avós, Seu Edir Paes e Dona ‘Florzinha’, sempre se preocuparam com a educação dos filhos. Nós fomos criadas juntas e eu conheço desde criança o talento que ela sempre foi. Quando a gente ia para o quintal da vovó, a gente brincava de vender açaí e ficávamos conversando horas e horas, era conversa que não terminava mais. E ela sempre inventou personagens, é um talento inato dela. Tudo isso passa na minha cabeça como um filme hoje”, acrescentou.




Discurso – Dira tomou a palavra, agradecendo o público, e dedicou o reconhecimento “aos invisibilizados, aos silenciados e aos povos da floresta”. A artista falou sobre o significado da honraria.

“Recebo hoje este título de Doutora Honoris Causa com o coração profundamente atravessado pela emoção, pela gratidão e pela responsabilidade. Esta honraria não pertence apenas a mim. Ela pertence a todos aqueles que caminharam comigo ao longo da vida; aos invisibilizados, aos silenciados, aos povos da floresta, aos artistas populares e aos sonhadores que insistem em florescer mesmo em tempos difíceis”, declarou.
A atriz também destacou suas raízes amazônicas e a arte como forma de conhecimento. “Hoje, diante desta universidade que é uma das maiores guardiãs do pensamento e da diversidade da Amazônia, sinto que a minha caminhada retorna às suas origens. E a minha origem tem cheiro de rio, som de floresta e voz de gente simples”. E acrescentou: “Eu acredito profundamente que a arte é uma forma legítima de produção de saber. E talvez, por isso, eu queira dizer aqui, com toda humildade, que me sinto também uma doutora dos não doutores”, finalizou sob forte aplauso da plateia.





Leia o Discurso de Dira Paes na íntegra
Magnífico Reitor da Universidade Federal do Pará,
Senhoras e senhores integrantes desta mesa,
Professores, estudantes, autoridades, artistas, mestres da cultura popular, amigos, familiares e povo amazônida aqui presente,
Receber o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Pará é uma honra que ultrapassa qualquer reconhecimento individual. Eu o recebo com emoção, humildade e consciência da responsabilidade que ele carrega. Porque esta honraria não fala apenas de uma trajetória artística; ela fala de pertencimento, memória, educação, cultura e compromisso com o povo brasileiro (especialmente com o povo amazônico).
Hoje, diante desta universidade que é uma das maiores guardiãs do pensamento e da diversidade da Amazônia, sinto que minha caminhada retorna às suas origens. E as minhas origens têm cheiro de rio, som de floresta e voz de gente simples. Sou amazônida. Sou filha da ancestralidade cabocla. Sou feita da mistura profunda entre natureza, memória e resistência.
Nasci em Abaetetuba, uma terra onde a vida ensina cedo o sentido da coletividade. Onde o rio não separa: ele une. Onde a floresta não é cenário: é existência. Cresci aprendendo que o mundo não começa no centro dos grandes poderes; ele também nasce nas margens, nos interiores, nos lugares que historicamente tentaram silenciar. E talvez por isso eu tenha aprendido desde cedo a escutar. Escutar as pessoas, os afetos, os sofrimentos, as alegrias e as narrativas invisibilizadas.
Meus pais, Edir e Flor, foram os grandes arquitetos da minha formação humana. Eles nos ensinaram, a mim e aos meus irmãos, que a única herança verdadeira seria a educação. Não uma educação apenas formal, mas uma educação ética, sensível e transformadora. Em uma região marcada por tantas desigualdades, meus pais compreendiam que estudar era um ato de emancipação.
Carrego comigo essa frase como um princípio de vida: “a única herança será a educação”. Porque a educação amplia horizontes, rompe ciclos de exclusão e nos oferece consciência crítica diante do mundo. Ela nos ensina não apenas a existir, mas a compreender o sentido da nossa existência coletiva.
Também tive nos meus irmãos os meus primeiros ídolos. Foram eles os exemplos mais próximos de coragem, inteligência, disciplina e humanidade. Antes mesmo de admirar artistas, personagens ou figuras públicas, eu admirava a capacidade deles de enfrentar a vida com dignidade. Eles me ensinaram que o afeto também educa. E que o amor familiar pode ser uma poderosa estrutura de sustentação para os sonhos.
Foi nesse ambiente de formação afetiva e intelectual que começou a despertar em mim a consciência da cidadania e da defesa do meio ambiente. Ser amazônida é carregar uma responsabilidade histórica. Não existe neutralidade para quem nasce na Amazônia. Porque a Amazônia não é apenas um território geográfico; ela é um patrimônio civilizatório, humano e espiritual.
Aprendi cedo que defender a floresta é defender vidas. Defender os rios é defender culturas. Defender os povos originários e tradicionais é defender a memória viva da humanidade. E essa consciência nunca esteve separada da minha trajetória artística. Ao contrário: ela atravessa tudo o que faço.
O filósofo Friedrich Nietzsche dizia: “Torna-te quem tu és.” Sempre achei essa frase profundamente desafiadora. Porque tornar-se quem somos exige coragem. Exige atravessar medos, contradições e expectativas impostas. Exige fidelidade às nossas origens.
E foram justamente a curiosidade e o encantamento pela literatura que abriram para mim as portas do cinema. Os livros me ensinaram a imaginar outros mundos e outras vidas. A leitura me ofereceu asas. E foi por causa desse encontro com a arte e a palavra que fui fazer o teste para o meu primeiro filme.
A menina amazônida que amava ler jamais poderia imaginar que construiria uma trajetória com mais de quarenta e quatro longas-metragens, trabalhando com alguns dos maiores nomes da cultura brasileira e internacional. Mas talvez o mais importante nunca tenha sido a quantidade de filmes. O mais importante sempre foi compreender o sentido humano de cada personagem, de cada história e de cada encontro.
A arte tem a capacidade rara de criar pontes entre experiências humanas diferentes. Ela nos faz reconhecer no outro aquilo que também nos constitui. E isso é profundamente político.
Minha formação como Bacharela em Artes Cênicas consolidou em mim a compreensão de que atuar não é apenas interpretar personagens. É pesquisar a alma humana. É estudar o comportamento, os afetos, as estruturas sociais, os silêncios e os conflitos do nosso tempo. A arte exige disciplina, pensamento crítico e entrega. Ela também produz conhecimento democrático.
Por isso, receber este título hoje me emociona de maneira tão especial. Porque ele aproxima dois territórios que muitas vezes tentaram separar: a universidade e a arte. Ambos inseparáveis. Eu acredito profundamente que a arte é uma forma legítima de produção de saber.
E talvez por isso eu queira dizer aqui, com toda humildade, que me sinto também uma doutora dos não doutores. Dos que aprenderam na experiência da vida. Dos que construíram conhecimento fora dos espaços tradicionalmente legitimados. Das mulheres simples da Amazônia. Dos trabalhadores invisíveis. Dos artistas populares. Das benzedeiras, dos pescadores, dos mestres da cultura oral, dos povos tradicionais.
O grande pensador, primo e filósofo paraense, João de Jesus Paes Loureiro, nos lembra sempre que a Amazônia é um território de encantaria, onde mito e realidade coexistem e eu aprendi vivendo e atuando que o imaginário também é uma forma de conhecimento. A cultura guarda sabedorias ancestrais que a academia precisa reconhecer cada vez mais.
Ao longo da minha trajetória, muitos personagens me ensinaram sobre compaixão, coragem e enfrentamento das injustiças sociais. Cada mulher que interpretei deixou em mim perguntas difíceis. Muitas delas eram personagens atravessadas pela violência, pela desigualdade, pelo abandono e pela luta por dignidade.
Essas personagens me transformaram. Porque atuar exige empatia radical. Exige compreender dores que talvez nunca tenham sido nossas diretamente, mas que passam a nos habitar.
E isso me aproximou ainda mais da compreensão de que a arte não pode estar dissociada da realidade social. Como nos ensinou Paulo Freire, “ninguém caminha sem aprender a caminhar”. A consciência crítica nasce do encontro entre experiência, diálogo e transformação.
Também encontro inspiração profunda nos autores paraenses que ajudaram a construir a identidade intelectual da nossa região. Eneida de Moraes, com sua escrita vigorosa e comprometida com as questões humanas; Dalcídio Jurandir, que revelou com tanta profundidade a alma amazônica; Benedito Nunes, cuja inteligência iluminou a crítica literária e filosófica brasileira; e a força contemporânea de Monique Malcher, que traz novas camadas de reflexão sobre violência, corpo, território e memória.
Vivemos um tempo em que defender a cultura, a ciência, a educação e o pensamento crítico tornou-se urgente. A universidade pública resiste diariamente para continuar sendo espaço de produção de conhecimento, inclusão e transformação social. E é impossível receber esta homenagem sem reconhecer o papel histórico da Universidade Federal do Pará.
Esta honraria me emociona porque nasce da Amazônia e retorna à Amazônia. Ela reafirma que nossos saberes, nossas vozes e nossas histórias importam.
Ser Doutora Honoris Causa não representa um ponto de chegada. Representa um compromisso renovado com o porvir. Um chamado à responsabilidade ética diante do nosso tempo.
Recebo este título com o entendimento de que todo reconhecimento só faz sentido quando compartilhado coletivamente. E por isso eu o divido com todos aqueles que caminharam comigo.
Com meus pais, Edir e Flor, que plantaram em mim a dignidade e o amor pelo conhecimento.
Com meus irmãos, meus primeiros exemplos de humanidade.
Com os professores que me ensinaram a pensar.
Com os artistas que abriram caminhos antes de mim.
Com os colegas de trabalho que compartilharam sonhos, desafios e criação.
Com o povo amazônida, que diariamente transforma resistência em existência.
Com o meu marido, Pablo Baião, que caminha comigo há 21 anos e meu deu de presente Inácio que foi o despertar da maternidade e transformou a minha vida para melhor e Martin pequeno filho que é a extensão de tudo que a gente deseja para o mundo, que é símbolo de esperança, de transformação e de amor.
Com Jajan, a quem deixo meu muito obrigada por ser a minha cúmplice, minha parceira de vida e por me acompanhar em todos os momentos de peito e coração abertos.
Também quero agradecer a todas as pessoas que se dispuseram a vir aqui e serem cúmplices dessa outorga que é um marco para mim. Vocês hoje são testemunhas de um momento em que é possível dizer: a Dira está recomeçando! Esse é um novo futuro para mim.
E com todas as pessoas que estiveram ao meu lado nos momentos de luz e também nos momentos difíceis. Nenhuma trajetória é construída sozinha.
Finalizo reafirmando minha gratidão profunda à Universidade Federal do Pará por esta honra inesquecível.
Levarei este título comigo não como um símbolo de vaidade, mas como um lembrete permanente da responsabilidade de continuar defendendo a cultura, a educação, a Amazônia e a dignidade humana.
Porque, no fim, aquilo que verdadeiramente permanece não é o prestígio individual. É a capacidade de contribuir para que o mundo seja mais sensível, mais justo e mais humano.
Muito obrigada.



Leia o Discurso do reitor da UFPA Gilmar Pereira da Silva na íntegra
Bom dia! Quero começar esta minha fala fazendo uma provocação:
Por que precisamos da arte?
A pergunta nos acompanha há séculos e permanece aberta porque toca algo essencial da experiência humana. A arte atravessa civilizações, resiste às batidas do tempo, segue firme diante das mudanças da história e permanece quando outras formas de expressão desaparecem.
Ela nos permite experimentar outras vidas, reconhecer sentimentos, revisitar memórias e imaginar futuros. Está presente no riso que nos aproxima e na emoção que nos desarma. Está também naquilo que nos inquieta, que nos obriga a olhar de novo, que nos faz perceber que o mundo pode ser diferente do que parecia ser. A arte, assim como uma universidade, deve ser transgressora.
É a partir da minha pergunta inicial que esta cerimônia ganha sentido, porque há solenidades que cumprem apenas um rito, e há outras que nos convocam a pensar sobre quem somos e sobre o sentido daquilo que fazemos. Esta pertence à segunda categoria.
Hoje, a Universidade Federal do Pará se reafirma como uma instituição plural, porque reconhece a diversidade dos saberes, das linguagens e das formas de produzir conhecimento, e singular, porque se enraíza na Amazônia, em sua realidade concreta, em seus desafios históricos e em sua potência criadora. É nesse encontro que a trajetória de Dira Paes se revela com tanta força.
Falar de você, neste momento, envolve mais do que reconhecer uma carreira consolidada. Há admiração e respeito, mas há também um sentimento de proximidade que nasce do modo como você sempre se manteve ligada à sua terra e à sua gente. Sua presença no cinema e na televisão nunca se distanciou das histórias, dos rostos e das vozes que fazem parte da Amazônia. Essa permanência não é apenas uma marca de origem, é uma escolha contínua de pertencimento.
Quando você aparece em cena, algo se movimenta em quem te assiste daqui. Surge um orgulho que se mistura com identificação. Vemos em você traços que nos pertencem, modos de existir que por muito tempo foram pouco representados.
Surge em nós uma delícia de sensação chamada “sentimento amazônida”. Esse reconhecimento tem um impacto profundo, porque altera a forma como nos vemos e como nos situamos no mundo, fortalece a autoestima coletiva, amplia horizontes e produz a percepção legítima de que também fazemos parte das narrativas que circulam no país.
Rimos com você, em personagens que capturam com inteligência o humor da vida cotidiana. Choramos com você, em narrativas que expõem dores humanas com intensidade e verdade. Essa capacidade de transitar entre registros tão distintos revela um entendimento sensível da condição humana, algo que ultrapassa o domínio técnico e alcança um campo mais profundo da experiência.
O filósofo paraense Benedito Nunes, que dá nome ao nosso Centro de Eventos, espaço este que se tornou um verdadeiro templo da cultura e do saber em nossa universidade, oferece uma reflexão decisiva para compreender essa relação. Em sua obra, arte e existência aparecem profundamente conectadas. A experiência estética expande aquilo que a razão, por si só, não alcança, reorganizando o discernimento, deslocando o olhar e permitindo que o mundo seja visto sob outras possibilidades.
Como observam estudiosos de seu pensamento, Benedito Nunes buscava na arte “fontes de conhecimento mais amplas e profundas do que no racionalismo estrito”. Nesse movimento, o artista não apenas representa a realidade, ele intervém nela, transforma sua forma de aparecer, transgride o que está posto e amplia as perspectivas do que pode ser pensado e vivido.
Dira, penso que uma universidade comprometida com a formação plena de seus estudantes precisa reconhecer essa dimensão.
O conhecimento não se restringe aos métodos formais, embora eles sejam fundamentais. Ele também se constrói na sensibilidade, na imaginação e na capacidade de interpretar a experiência humana em toda a sua complexidade.
Em momentos como este, surgem questionamentos legítimos sobre o sentido de conceder um título acadêmico a uma artista. Eles fazem parte do debate público e merecem resposta serena e direta. Desde sua origem, as universidades reconhecem que o saber humano se manifesta de múltiplas formas. A ciência, a filosofia, a literatura e as artes compõem um conjunto diverso de práticas que, juntas, alargam a compreensão da realidade.
Os critérios que orientam a concessão do título de Doutora Honoris Causa, que significa literalmente “por causa da honra”, expressam esse entendimento: relevância pública, mérito excepcional, impacto social e compromisso com valores institucionais. A decisão unânime deste Conselho reconhece que sua trajetória reúne esses elementos de forma consistente.
Sua contribuição para a cultura brasileira aumentou a presença da Amazônia no cenário nacional, reposicionando a região dentro de um campo simbólico maior, onde suas histórias passam a ser contadas com mais densidade e autenticidade.
Mas o seu caminho, Dira, vai além da arte enquanto linguagem. Ao longo dos anos, você assumiu uma presença ativa na defesa dos direitos humanos, das populações tradicionais e da preservação socioambiental da Amazônia. Em um contexto marcado por pressões econômicas, conflitos territoriais e ameaças constantes aos modos de vida tradicionais, sua voz pública tem sido exercida com responsabilidade e clareza, ampliando o alcance de pautas que muitas vezes permanecem à margem do debate nacional.
A relevância pública do seu trabalho se manifesta tanto na arte quanto no engajamento social.
O mérito excepcional se evidencia na consistência de uma carreira que atravessa décadas com reconhecimento e respeito. O impacto social se revela na capacidade de influenciar percepções, gerar debate e fortalecer identidades. E o compromisso com valores institucionais se expressa na defesa permanente da cultura, da educação, dos direitos humanos e do meio ambiente.
Ao conceder este título, a UFPA também afirma algo sobre si mesma. Atesta que o conhecimento se manifesta de múltiplas formas. Confirma que a arte gera reflexão, produz sentido e participa ativamente da transformação da sociedade. Certifica que uma universidade precisa reconhecer, incluir e valorizar essa diversidade.
Sua trajetória construiu pontes: entre as regiões do país, entre diferentes públicos, entre o Brasil que se vê e o Brasil que, por muito tempo, permaneceu invisibilizado. Em um país marcado por desigualdades e por distâncias simbólicas, esse movimento tem valor profundo.
Ao te recebermos como Doutora Honoris Causa, fazemos isso com respeito, com admiração e com amizade. Este título expressa o reconhecimento institucional de uma artista exemplar, mas também carrega um sentimento coletivo de pertencimento, e nos lembra, afinal, por que precisamos da arte.
Ao olharmos para o seu trabalho recente na novela “Três Graças”, percebemos como algumas palavras ganham novos sentidos neste momento. “Doutora”, “Dira” e “Paes” passam a se encontrar de uma forma especial: três palavras que, reunidas, também produzem sua própria graça, agora estendida por este título que a UFPA te confere.
Em nome da Universidade Federal do Pará, uma Universidade Plural e Singular, receba o nosso abraço, o nosso carinho e o nosso mais sincero reconhecimento.
Muito, muito obrigado.