Uma articulação histórica entre a sabedoria ancestral e o método científico acadêmico está redesenhando o mapa da vida silvestre no coração da Amazônia. A parceria deu como fruto um inventário com registros de 14.823 animais de 602 espécies diferentes. Estes resultados e muitas outras discussões estão sendo apresentadas na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, no Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, que segue com programações até este sábado (20).
O levantamento apontou uma forte presença de animais ameaçados ou vulneráveis, fundamentais para o equilíbrio da floresta — como o tatu-canastra e o macaco-zogue-zogue que tem na Terra Indígena Panará, um território que se estende pelas divisas do Pará e de Mato Grosso, o seu habitat natural. Ao mesmo tempo, a colaboração também gerou surpresas para os indígenas, que passaram a catalogar espécies antes não registradas por sua cultura local, a exemplo da perereca-de-vidro e da ave maria-leque.
O pesquisador Indígena Sôpôa Panará, da comunidade Nanpôôrõõ, que faz parte do território Panará, destacou os conhecimentos proporcionados pela experiência. “Foi a primeira a acontecer no território Panará e foi muito importante para todos nós, eu aprendi muitas coisas que já foram catalogadas pela ciência em relação aos animais, plantas e árvores do nosso território e nós contribuímos com os conhecimentos tradicionais que temos sobre a nossa terra”.


Diálogo intercultural – O diferencial do projeto não reside apenas no volume de dados, mas na metodologia aplicada. Em vez de cientistas externos atuando de forma isolada, estabeleceu-se uma pesquisa intercultural e colaborativa. Nela, os pesquisadores acadêmicos trabalharam lado a lado com os pesquisadores Panará, cruzando estratégias tecnológicas de geotecnologia e monitoramento hídrico, com a sensibilidade e o conhecimento geográfico de quem vive na floresta há gerações.
A iniciativa é resultado de uma grande rede de cooperação que envolve a Conservação Internacional (CI-Brasil), a Associação Indígena Iakiô, a Rede Xingu+, o Instituto Socioambiental (ISA), além da UFPA, da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contando ainda com o fomento do CNPq e apoio corporativo da HP Inc.
Para Renata Pinheiro, diretora do Programa Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da CI-Brasil, a união de perspectivas foi a chave para o sucesso do projeto. “Ampliamos a compreensão sobre a riqueza da Amazônia e estabelecemos novas estratégias de preservação que servirão de referência para outras reservas brasileiras”, comentou.

Debates e Programação na UFPA – O Seminário, realizado de forma gratuita no Prédio das Pós-Graduações do Instituto de Tecnologia (Ppgitec), propõe uma imersão social e cultural.
O primeiro dia foi marcado por rituais culturais dos Panará e discussões institucionais. As atividades ganharam força com debates dedicados aos dados zoológicos, ao uso de geotecnologias para o mapeamento da biodiversidade e à apresentação de diagnósticos sobre a qualidade da água do território.
Para Bruno Martinelli, Coordenador de Programas e Projetos para Serviços Ecossistêmicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o seminário se caracteriza como um espaço muito rico para conhecer experiências e práticas de pesquisas colaborativas em biodiversidade. “A partir dos conhecimentos do povo Panará e dos conhecimentos acadêmicos acumulados na UFPA e na academia como um todo, esse evento mostra para a gente o potencial que existe nesse campo da pesquisa e como que os povos e comunidades da Amazônia detém muito conhecimento sobre a biodiversidade e como pode ser um rico espaço de produção de conhecimento coletivo”, reforçou.
A agenda do evento avança com um debate sobre o inventário botânico e os desafios ético-políticos envolvidos na coleta de dados em terras protegidas. Um dos momentos mais aguardados será um espaço para que os próprios pesquisadores Panará relatem suas experiências sobre a integração dos saberes. O fechamento do ciclo de debates contará, ainda, com propostas sobre “Ciência Cidadã” e o papel crucial que as comunidades tradicionais desempenham frente aos desafios climáticos e ambientais do século XXI.
As discussões e apresentações contam com transmissão em tempo real por meio do canal oficial da Conservação Internacional no YouTube, com inscrições digitais via Sympla.




