No dia 5 de junho é celebrado anualmente o Dia Mundial do Meio Ambiente, data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972 com o objetivo principal de alertar a população e os governos sobre os desafios ambientais, bem como incentivar a proteção da natureza. Seguindo esses preceitos, uma iniciativa têm evidenciado a importância dos rios urbanos do Campus Guamá como laboratórios vivos para a produção de conhecimento e a formação de profissionais comprometidos com a sustentabilidade. A ação realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Consórcio de Dragagem e Drenagem Urbana da Prefeitura de Belém, tem contribuído para aproximar a comunidade universitária desses espaços e fortalecer atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Localizados nos setores da Saúde e Profissional, os rios Sapocajuba e Tucunduba, respectivamente, fazem parte da paisagem da Universidade e desempenham um papel fundamental para pesquisas e ações educativas desenvolvidas por diferentes áreas do conhecimento. Além da relevância ambiental, esses espaços têm se consolidado como ambientes de aprendizagem que integram estudantes, pesquisadores e comunidade em atividades voltadas à educação ambiental e ao cuidado com os recursos hídricos.
Durante o mês de junho, equipes da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), em parceria com o “Bosquinho” da UFPA – administrado por Gina Calzavara, figura atuante nas ações –, realizaram a retirada manual de resíduos sólidos acumulados nas margens dos rios e a poda controlada da vegetação em trechos específicos. Segundo a professora da Faculdade de Oceanografia e coordenadora do projeto “OCA Social”, Sury Monteiro, que atua há 8 anos no espaço com ações de extensão, a intervenção também permitiu ampliar a visibilidade dos rios para quem circula pelo campus Guamá.

Para a coordenadora, entretanto, o principal desafio vai além da limpeza dos espaços. “Não falamos em recuperar, preferimos usar o termo ‘descortinar’, pois existe uma cegueira ambiental em reconhecer os rios como rios”, afirma. Segundo a professora Sury, os rios Tucunduba e Sapocajuba são ambientes vivos, responsáveis por transportar vidas, movimentar a economia e oferecer importantes serviços ecossistêmicos. “Os estudantes participaram da reconstrução de uma janela ambiental que permite novos olhares ao ambiente e este ensino nos ambientes naturais impacta positivamente o processo de humanização destes estudantes. […] Precisamos usar o nosso conhecimento para solucionar os problemas que enxergamos”, destaca.
Embora apresentem características distintas, os dois rios sofrem impactos provocados pela urbanização. No caso do Sapocajuba, a presença de ocupações próximas favorece o lançamento de resíduos e esgoto doméstico. Já no Tucunduba, estudos desenvolvidos pela equipe do projeto estimam que mais de seis toneladas de resíduos plásticos passem pelo rio ao longo de um ano, volume que aumenta durante o período chuvoso e em épocas festivas. Apesar da renovação diária das águas pela influência das marés, a professora ressalta que o controle do lançamento de resíduos e efluentes continua sendo uma medida urgente.

Os rios também cumprem um papel estratégico na formação acadêmica. Os Bosques dentro da UFPA já existem há pelo menos 15 anos, com ações extensionistas sendo desenvolvidas neles, o que vêm estimulando novas pesquisas e estudos em diferentes áreas, transformando esses espaços em lugares de prática e experiência. Um exemplo ocorreu no dia 12 de junho, quando estudantes da disciplina “Educação Ambiental Aplicada à Oceanografia” participaram de uma atividade prática às margens do rio Tucunduba, envolvendo reflexões sobre ética do meio ambiente e a construção da chamada “Janela Ambiental”, estrutura criada para ampliar a visualização do rio e incentivar novos olhares sobre o ambiente. Este processo demonstra como o ensino, a pesquisa e a extensão transformam a formação profissional e a percepção dos rios amazônicos, dentro e fora da sala de aula.
Graduando do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental e integrante do projeto “OCA Social” desde 2022, Pedro Lucas Gama afirma que a experiência modificou completamente sua relação com os rios da universidade. “Eu não conhecia a existência do rio Sapocajuba dentro da universidade, mas, após integrar o projeto OCA Social, minha percepção mudou completamente e passei a observar os rios a partir de uma ótica diferente, como um verdadeiro cidadão cientista”, relata.
Segundo Pedro, compreender os rios significa compreender também as comunidades, a cultura e a biodiversidade que dependem desses ambientes. “Falar de rios é muito mais do que falar apenas sobre corpos hídricos: é sobre o modo de vida das comunidades, sua cultura, sua história, sua fauna e sua flora”, pontua. Para o discente, a vivência extensionista complementa a formação acadêmica ao aproximar os conhecimentos técnicos das demandas sociais e ambientais do território amazônico. “Consigo somar o conhecimento técnico adquirido em sala de aula com o conhecimento ambiental adquirido nas ações extensionistas. Então, sempre que puder, estarei atuando para que estes ambientes sejam protegidos, cuidados e preservados”, garante.
A estudante de Engenharia Sanitária e Ambiental, Elida Samantha Cavalcante, destaca as transformações proporcionadas pelo projeto. “Meu único contato era quando eu passava por eles (os rios) e, quando entrei no projeto, pude perceber que eles são mais do que percebemos; eles também são histórias, memórias e conhecimento”, declara. Para a discente, as ações desenvolvidas nos rios demonstram que a educação ambiental vai além da transmissão de informações. “Costumamos dizer que consciência todos nós temos, mas o que muitas vezes nos falta é sensibilização. Posso dizer que esses rios fazem parte da minha formação como engenheira e como uma pessoa melhor, pois antes eu os via apenas como algo que me proporcionaria conhecimentos técnicos, mas hoje também consigo enxergar a parte humanizada”, reflete Elida.
Como resume a professora Sury Monteiro, ensinar nesses espaços naturais é abrir caminhos e reconhecer a necessidade de enxergar a importância dos nossos rios, transformando a realidade a partir do conhecimento produzido na universidade.