Beth Ribeiro recebe medalha do mérito administrativo por dedicação à UFPA em mais de 60 anos de trabalho

O Conselho Superior de Administração, da Universidade Federal do Pará, em reconhecimento à competência técnica, espírito colaborativo, ética e compromisso institucional, concedeu a Medalha “Juracy Sá Netto”, de Mérito Administrativo, à servidora aposentada Maria Elisabeth Dourado Ribeiro, que completa 65 anos de atuação dedicados à UFPA. A sessão solene de homenagem, presidida pelo reitor Gilmar Pereira da Silva, foi realizada nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, no Auditório da Secretaria Geral dos Conselhos Superiores Deliberativos (SEGE). 

Instituída em 29 de agosto de 2007, a Medalha “Juracy Sá Neto” homenageia servidores e servidoras que, por meio da dedicação e da qualidade do trabalho, contribuem para o aprimoramento da gestão administrativa e de pessoas na instituição. Carinhosamente conhecida como Dona Beth entre colegas e gestores, a homenageada contribuiu de forma decisiva para o crescimento da UFPA, atuando em diversas unidades administrativas e deixando como legado o profissionalismo, a gentileza e a inspiração. Éo que destaca o Memorial elaborado pela Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal (PROGEP), unidade responsável pela proposição da homenagem.

Dizer que a trajetória profissional de Beth Ribeiro se confunde com a própria história da UFPA é quase uma redundância. Dos 14 reitores da Universidade, ela trabalhou com 13. Seu ingresso ocorreu em dezembro de 1961, quando a UFPA tinha apenas 3 anos de existência e era formada por sete faculdades – Medicina, Direito, Farmácia, Engenharia Civil, Ciências Econômicas, Contábeis e Atuariais, Filosofia, Ciências e Letras e Odontologia – distribuídas em prédios isolados localizados em diferentes pontos da cidade.

Na época do ingresso, o segundo Reitor, José da Silveira Neto, estava completando seu primeiro ano de gestão. Ele passaria quase nove anos no cargo. A Reitoria funcionava em um elegante prédio que havia sido residência do governador Augusto Montenegro, na esquina da avenida José Malcher com a Generalíssimo Deodoro, onde, hoje, está instalado o Museu da UFPA. O Campus do Guamá ainda era apenas um projeto distante, e a estrutura universitária contava com apenas dois departamentos: Educação e Ensino e Administração.

“Fico imaginando a UFPA lá atrás, o tamanho que ela tinha quando a Dona Beth entrou por aquelas portas pela primeira vez. Ela viu a Universidade ser construída no dia a dia, acompanhou de perto cada expansão e viu essa instituição se agigantar, sendo peça fundamental em cada conquista”, destacou o reitor da UFPA durante a homenagem. “Reverenciar a Dona Beth é reverenciar o que temos de melhor. É agradecer a quem nos acolheu e nos preparou para o futuro com tanta generosidade. Muito obrigado, Dona Beth, por transformar seis décadas de trabalho em uma das mais lindas histórias de amor e dedicação à educação do nosso povo”, completou.

Beth ingressou na UFPA aos 18 anos, como escriturária da Assessoria Técnica da Reitoria dirigida pelo professor Édson Franco, passando a atuar no Gabinete do Reitor a partir de julho de 1964, onde permaneceu até o final do mandato do Reitor Silveira Netto, em 03 de julho de 1969, quando passou a desenvolver suas atividades no então Departamento de Pessoal, levando consigo uma notável agilidade na máquina de escrever, um bom domínio da redação oficial, que ampliaria com o passar dos anos, memória extraordinária para nomes e datas de admissão de professores e servidores e uma dedicação ao trabalho rara de se encontrar. Essa dedicação se reflete, inclusive, na permanência voluntária na ativa por mais de 35 anos após a aposentadoria. Beth Ribeiro é testemunha e protagonista da história da UFPA.

Atualmente, atua como voluntária, na Coordenadoria de Registro e Movimentação de Pessoal (CRMP), da PROGEP. Ao longo da carreira, exerceu diversos cargos de destaque, entre eles: chefe da Seção de Legislação, Direitos e Deveres (1973), responsável pela Divisão de Legislação e Controle de Cargos e Empregos (1974), responsável pelo Departamento de Pessoal (1977), diretora de Pessoal (1985), pró-reitora de Administração (1988), Secretária-Geral do Gabinete da Reitoria (1989-1990) e assessora da Reitoria (1993-1997) e da Procuradoria da UFPA (2001-2011). O Memorial que fundamentou o parecer do Consad registra ainda diversos elogios formais consignados em portarias assinadas pelos reitores Clóvis Cunha da Gama Malcher, Daniel Coelho de Souza, Nilson Pinto de Oliveira, Marcos Ximenes Ponte e Alex Fiúza de Mello.

“Chamei a Dona Beth ao gabinete sem saber como ela reagiria à notícia. Mas, ao contar sobre a homenagem, vi em seus olhos a emoção de alguém que dedicou a vida à UFPA com um amor raro de se encontrar. A Dona Beth é, para todos nós da PROGEP, uma referência diária de dedicação e generosidade. Anunciar essa homenagem foi um gesto pequeno diante de tudo o que ela representa para a história desta Universidade”, afirmou o pró-reitor de gestão de pessoal, Ícaro Duarte Pastana.

O início – Ainda atuando na Assessoria Técnica da Reitoria, Beth Ribeiro trabalhou no porão da Reitoria, no prédio da José Malcher, na sala onde funcionavam o Almoxarifado e o Arquivo da Reitoria. Ainda muito jovem, deparou-se com processos acumulados desde 1957 – ano de fundação da UFPA –, empilhados no chão. Achou aquilo tudo muito desorganizado. Sem nenhuma experiência, resolveu, então, botar ordem no espaço. Sem consultar ninguém e sem um critério estabelecido pela instituição, ela decidiu organizá-los por ordem numérica e os arquivou em pastas que eram do Almoxarifado. A experiência marcou seu primeiro grande aprendizado sobre o funcionamento institucional. Dois dias depois, encontrou todos os processos jogados no chão. “As pastas que usei tinham sido requisitadas pelas Unidades da UFPA ao Almoxarifado. Foi então que descobri que o Almoxarifado era um ponto de estoque de materiais para uso das unidades”, diverte-se com a memória a homenageada.

Formada no terceiro ano científico e diplomada em datilografia pela tradicional Escola Mauá, sua habilidade com as teclas chamou a atenção de Édson Franco, que a convidou para trabalhar com ele, na Assessoria Técnica, órgão de assessoramento do Reitor. Na época, não havia mesas suficientes. Ela, então, dividiu uma com outra colega. Foi ali que iniciou sua atuação na redação de documentos oficiais. Édson Franco fazia as minutas e ela datilografava, de tal forma que logo aprendeu a redigir os documentos oficiais da UFPA. Ela também datilografava as provas de Português do vestibular, elaboradas por Édson Franco e por Acy de Jesus Neves de Barros Pereira. Era um trabalho de extrema responsabilidade. As provas eram datilografadas diretamente no estêncil, quase à hora do concurso. As provas de Português – as mesmas aplicadas para todos os cursos – saiam direto da impressão para as salas do vestibular, levadas em mãos pelos dos dois professores que as elaboravam, tudo para garantia do sigilo necessário.

Beth Ribeiro reconhece a importância de figuras fundamentais em sua formação, como Yeda Xerfan, servidora desde a fundação da universidade. “Ela era aberta, sempre disposta a ensinar os outros”, reconhece. Em julho de 1964, a Chefia do Gabinete do Reitor José Rodrigues da Silveira Neto ligou para a Assessoria Técnica e pediu à Yeda enviar uma funcionária para o Gabinete para substituir uma servidora em férias. Yeda mandou a jovem Beth. Seu trabalho era receber os processos para despacho do reitor. De forma voluntária, decidiu fazer mais: passou a elaborar correspondências de rotina, de forma a agilizar o trabalho do Reitor. Se ele concordasse, bastaria assinar embaixo. Mas ela logo percebeu que ele não gostou da ousadia. Mesmo que a redação estivesse correta, ele tinha que intervir, mudar uma ou duas palavras, colocar uma vírgula e mandar reescrever novamente. Ela conta que continuou a elaborar os documentos, “até que um dia ele assinou sem fazer alteração. Foi assim que ganhei aquela briga. Depois o Dr. Silveira se tornou meu amigo. No final do mandato, ele estava com a visão muita afetada por causa da catarata. Passei, então a ler para ele os processos e apontar no processo, o local onde ele deveria escrever os despachos”.

Ela também expressa gratidão a Rosa Freitas, primeira Diretora de Pessoal da UFPA. “Aprendi muito com ela. Várias vezes trabalhei com ela nos fins de semana para ajudar no serviço. Eu era lotada no Gabinete do reitor, mas gostava de ajudar em outros setores, como fazia ao então Departamento de Pessoal, onde sempre gostei de atuar”, conta.

Inauguração do Campus–Durante a gestão do reitor Silveira Netto, Beth participou ativamente dos trabalhos que viabilizaram a construção do Campus da UFPA.  O arquiteto Alcyr Meira, da Divisão de Obras, solicitou a ajuda de Beth ao Gabinete do Reitor, para datilografar documentos das licitações para construção e especificações técnicas das obras, coisas como traços de cimento a serem usados, por exemplo. A ideia dos pavilhões térreos no Campus Básico, o reitor trouxe de uma visita a universidades norte-americanas. Beth acompanhou de perto o processo que transformaria uma grande área alagada no Campus da UFPA. “Aquilo tudo tinha muita lama, mato e cobras. Eram tantas cobras venenosas” – conta – “que a administração do então Núcleo Pioneiro organizava o envio delas, em embalagens especiais, para o Instituto Butantã, em São Paulo, para utilização na confecção de soros antiofídicos”. Em 1968, ela esteve presente na cerimônia de inauguração do Campus, marcada por uma Missa Campal na área aterrada do Campus do Guamá, onde hoje estão os estacionamentos de veículos.

A Reitoria, no entanto, continuou no prédio do atual Museu da UFPA. E o Departamento de Pessoal somente em 1975 foi transferido para o novo campus, então chamado Núcleo Pioneiro, ocupando inicialmente, uma ala do prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Um ano depois, passou para o prédio do Centro de Letras, onde também ocupou uma ala no segundo Pavimento, permanecendo até 1981, quando o prédio da Reitoria foi inaugurado, já na gestão do reitor Daniel Coelho de Souza.

Memória pródiga – Beth conta esses fatos, assinalando os anos em que ocorreram graças à sua memória excepcional. Diz que sempre demonstrou facilidade em guardar nomes, datas e lotações, habilidade adquirida durante os anos de atuação no Departamento de Pessoal. Episódios marcantes, como o desafio feito pelo então reitor Aloysio da Costa Chaves, apenas reforçaram essa habilidade. Em um deles, precisando obter informações sobre novos servidores, o reitor ligou para a diretora do DEPES, Yeda Xerfan, mas ao ser informado que ela havia saído para o almoço, pediu para alguém do setor ir ao gabinete. Embora “morrendo de medo” pois Aloysio Chaves era muito exigente, Beth Ribeiro foi ao gabinete e forneceu todas as informações: nomes completos, datas de admissão e lotação, tudo de cabeça. Sabia dos detalhes por que fora ela quem redigira os contratos. O reitor, desconfiando da informação, disse que queria checar os dados. De certa forma contrariada, Beth foi ao DEPES, pegou as cópias dos contratos e as levou ao reitor. Quando viu que estava tudo correto, ele mudou a forma de lhe tratar. “Até ficou mais simpático comigo. Depois que se aposentou, era eu quem separava o contracheque dele e entregava ao mensageiro que enviava”, recorda.

Elogios em folha – Apesar dos elogios registrados em sua folha funcional, Beth Ribeiro se declara avessa a homenagens. Para ela, desempenhar o trabalho com excelência é uma obrigação de todo servidor. Desde 1991, atua voluntariamente, movida pelo prazer de trabalhar. Ela conta que quase entrou em depressão quando se aposentou e ficou em casa: “todas as manhãs, durante muitos anos, acordava cedo e saía para o trabalho. De repente, fiquei sem fazer nada”. Passou uma semana nessa agonia, até que recebeu um convite do ex-reitor Nilson Pinto para trabalhar na Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente -SECTAM. Mais tarde voltou à UFPA ao aceitar convite de Cristina Cesar de Oliveira, nomeada pelo então Reitor Alex Fiuza de Mello como Procuradora-Geral, indo atuar na Procuradoria, de 2001 a 2011. A partir de 2011, na gestão do reitor Carlos Edilson Maneschy, ela regressou ao antigo habitat, a PROGEP, a convite do então pró-reitor, João Cauby Junior. Produzindo muito e sempre cercada pelo carinho dos colegas. Beth Ribeiro se diz uma pessoa de sorte: “sempre gostei de fazer o que faço, tive muita sorte, nunca fui perseguida nem sofri qualquer tipo de assédio. Todos os meus chefes me trataram com respeito”.

A homenagem – A medalha conferida à esta funcionária exemplar leva o nome de um antigo colega, que também dedicou a carreira à UFPA. Juracy Sá Neto, servidor igualmente exemplar, da Secretaria-Geral dos Conselhos Superiores Deliberativos, com quem Beth compartilhou não apenas o ambiente de trabalho, mas também momentos de amizade e brincadeiras, como as disputas informais de rapidez nas máquinas de datilografia de então. Sobre a homenagem, Beth disse que, ao ser chamada ao gabinete do pró-reitor Ícaro Duarte Pastana imaginou que seus serviços seriam dispensados. Em vez disso, recebeu a notícia da homenagem. Com humildade, resumiu sua trajetória: “na Universidade, fiz muitos amigos, conheci pessoas extraordinárias. Minha vida aqui foi – e continua sendo – excelente”.

TEXTO: Walter Pinto - Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA e Acervo Pessoal

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