Quatorze artistas do Pará e do Ceará ocupam os espaços do Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA) na exposição “Imaginários Queer: entre o figurativo e o abstrato”. A mostra apresenta pinturas, esculturas, fotografias, vídeo, instalações e objetos em torno de diferentes poéticas contemporâneas. Com curadoria de Eduardo Bruno Freitas e Paola Maués, e curadoria adjunta de Waldirio Castro, a exposição convida o público a refletir sobre identidade, território, afetos, espiritualidades, ecologia e experiências LGBTQIAPN+, por meio de produções que transitam entre a figuração e a abstração.
Realizada pela Plataforma Imaginários, a mostra chega a Belém após sua primeira edição no Cariri cearense e ganha uma nova configuração ao incorporar sete artistas paraenses aos sete cearenses que participaram da exposição original. O resultado é um diálogo entre diferentes trajetórias artísticas que evidenciam a potência da produção contemporânea desenvolvida fora do eixo tradicional da arte brasileira.
“Receber a mostra Imaginários Queer demonstra o nosso compromisso do Museu com uma universidade que valoriza a diversidade, a produção artística e os debates contemporâneos. Essa é uma exposição que dialoga diretamente com discussões que já fazem parte da nossa instituição e fortalece o museu como espaço de reflexão, encontro e construção de conhecimento”, destaca Luiz Tadeu da Costa, diretor do Museu da UFPA.
Segundo ele, a presença de docentes, egressos e artistas ligados à UFPA é prova da integração entre produção acadêmica e criação artística, além de fortalecer o intercâmbio cultural entre o Pará e o Ceará.




Norte e Nordeste – A proposta curatorial da exposição vai além da reunião de artistas de duas regiões brasileiras. Para Eduardo Bruno, o objetivo é ampliar as formas de narrar a arte e o próprio país. “A exposição propõe pensar o Brasil a partir dessas regiões. é uma forma de ampliar as narrativas sobre a arte brasileira e fortalecer redes de colaboração construídas de maneira horizontal entre artistas, pesquisadores e instituições”, explicou o curador.
Ele ressalta que a Plataforma Imaginários nasceu justamente do desejo de aproximar artistas, pesquisadores e curadores do Norte e Nordeste, criando circuitos de circulação e colaboração que valorizem essas regiões e suas produções culturais.
A curadora Paola Maués lembra que a exposição é resultado de um processo coletivo, construído ao longo de meses de trabalho envolvendo artistas, equipe técnica, educadores e instituições parceiras. “Esta é uma exposição construída por muitas mãos. Cada obra, cada escolha curatorial e cada atividade foram pensadas para criar uma experiência coletiva, em que a visita não se encerra na contemplação, mas continua por meio de performances, ações educativas e encontros com o público”, enumerou.
Além da visitação, a programação inclui performances, rodas de conversa e atividades educativas que buscam ampliar o diálogo entre o público e as obras.


Parceria – A realização da mostra conta com a parceria da Galeria de Arte da UFPA, que também recebeu uma residência artística do cearense Thyago Nunes. Parte da produção desenvolvida durante esse período passará a integrar o acervo da instituição.
Para o diretor da Galeria de Arte da UFPA, Orlando Maneschy, a exposição exemplifica o potencial da atuação integrada entre diferentes espaços da Universidade. “Esta exposição é resultado de uma construção coletiva entre diferentes espaços da UFPA e parceiros externos. Ela demonstra como a universidade pode aproximar pesquisa, curadoria, produção artística e formação acadêmica, fortalecendo uma rede de colaboração que permanece para além da mostra”, defendeu.
Entre as artistas participantes, está Waléria Américo, professora da Faculdade de Artes Visuais, que apresenta a série Naturezas, resultado de uma pesquisa que aproxima artes visuais, música e percepção.


O trabalho parte de desenhos produzidos pela artista, os quais passam por um processo de desconstrução. Linhas e formas são reduzidas a pontos, reorganizados e transformados em partituras. Essas partituras dão origem a composições musicais desenvolvidas em colaboração com outros músicos, criando uma experiência que ultrapassa a contemplação da imagem e convida o público a experimentar uma escuta mais atenta da paisagem e do espaço.
Durante a abertura da exposição, a obra foi ativada em uma performance realizada em parceria com a professora da Escola de Música da UFPA Adriana Azulay, permitindo que os visitantes acompanhassem, ao vivo, a transformação dos desenhos em experiência sonora.
“Meu trabalho parte do desenho, mas busca criar experiências de escuta. Transformo linhas e pontos em composições musicais porque me interessa convidar o público a parar, ouvir e perceber outras formas de se relacionar com a paisagem e com o espaço”, explica a artista.

A professora da Faculdade de Artes Visuais da UFPA Elaine Arruda também integra a exposição. Ela apresenta um conjunto de obras iniciadas em 2013, em chapas metálicas originalmente concebidas como matrizes de gravura. Ao longo de treze anos, as peças permaneceram expostas à ação do tempo, permitindo que a oxidação se tornasse parte do próprio processo criativo.
Os sulcos produzidos pelas ferramentas romperam a camada de proteção do metal, possibilitando o surgimento da ferrugem. Em vez de interromper esse processo, a artista decidiu incorporá-lo à obra, transformando a passagem do tempo em elemento central da criação. Inspiradas pela música e pela paisagem amazônica, as peças não buscam representar formas reconhecíveis, mas traduzir vibrações, movimentos e memórias inscritas na matéria.
“Esses trabalhos nasceram em 2013 e passaram mais de dez anos reagindo ao tempo. O que me interessa não é representar a paisagem, mas a vibração das coisas, as transformações que vivemos e as marcas que o tempo deixa em nós e na matéria”, afirma Elaine.

A docente destaca, ainda, o significado de apresentar a série pela primeira vez justamente no Museu da UFPA. “É muito importante ser reconhecida pela instituição em que atuo como professora. Também vejo essa participação como um incentivo aos estudantes que acompanham minha trajetória e desejam seguir a carreira artística”, conclui.
A exposição “Imaginários Queer: entre o figurativo e o abstrato” permanece em cartaz no Museu da UFPA até 3 de setembro de 2026, de segunda a sexta, das 10h às 16h, com entrada gratuita.