Hoje, escrever sobre Zélia é muito difícil para mim. Difícil porque a Universidade Federal do Pará se despede de uma das pessoas mais importantes de sua história, mas também porque me despeço de uma amiga, de uma companheira de tantas lutas e de alguém por quem tenho profunda admiração.
Zélia Amador de Deus foi uma das mais importantes intelectuais e ativistas negras do Brasil. Sua vida se confunde com a história da luta antirracista no nosso país e também com a história da própria UFPA. Ela ajudou a transformar esta Universidade com sua presença, sua inteligência, sua arte, sua coragem e sua capacidade de abrir caminhos que, por muito tempo, se mantiveram fechados.
Como homem negro e, hoje, reitor desta Universidade, sei que ocupar determinados espaços nunca é apenas uma conquista individual. Antes de nós, houve quem enfrentasse barreiras, questionasse estruturas e alargasse os caminhos para que outros pudessem chegar. E eu não tenho a menor dúvida que Zélia é uma dessas pessoas.
Quando ela chegou à Vice-Reitoria da Universidade Federal do Pará, ela não chegou sozinha. Carregou consigo histórias, lutas e esperanças de muitas pessoas negras que durante tanto tempo tiveram negado o direito de se imaginar nesses lugares. Ela fez de sua presença uma forma de transformação.
Participou de articulações fundamentais do movimento negro brasileiro, ajudou a construir o debate sobre ações afirmativas dentro e fora da Universidade e dedicou sua vida a enfrentar o racismo não apenas como objeto de reflexão, mas como uma estrutura que precisava ser transformada.
Mas há algo que os cargos, os títulos e as muitas páginas de sua trajetória não conseguem registrar completamente: Zélia é também presença, afeto, amizade, inquietação, generosidade e firmeza. Quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado sabe que sua luta nunca foi apenas por si mesma.
Ela nos ensinou: “A vida para mim é sinônimo de luta e luta para mim é sinônimo de vida”.
E Zélia lutou demais e sua luta produziu caminhos. Hoje, a UFPA é uma Universidade mais negra, mais diversa e mais consciente das desigualdades que precisa enfrentar também porque Zélia esteve e sempre estará aqui. Essa talvez seja uma das nuances mais bonitas de uma vida dedicada a transformar o mundo: continuar presente nas possibilidades que ajudamos a criar para aqueles que vêm depois de nós.
Como reitor, expresso a gratidão da Universidade Federal do Pará por tudo o que Zélia construiu conosco e por nós.
Como homem negro, reconheço a grandeza de uma mulher que ajudou a tornar possíveis muitos dos lugares que hoje podemos ocupar.
E, como amigo, guardo a saudade, o carinho e a imensa gratidão por ter compartilhado parte da caminhada com ela.
Obrigado, Zélia.
Por sua coragem. Por sua inteligência. Por sua amizade. Por sua luta. Por não ter desistido de abrir caminhos. Obrigado!
Você permanece na história da Universidade Federal do Pará, na história da arte produzida no Norte, na história do movimento negro brasileiro e, sobretudo, nas vidas de tantas pessoas que ajudou a transformar.
Gilmar Pereira da Silva
Reitor da Universidade Federal do Pará