Na última terça-feira, 11 de agosto de 2026, a Universidade Federal do Pará e a Universidade de Michigan assinaram um Memorando de Entendimento (MOU) para ampliar as possibilidades de colaboração em pesquisa, mobilidade acadêmica, formação de pesquisadores, intercâmbio de docentes e participação de pesquisadores visitantes. O ato foi celebrado no auditório do prédio das pós-graduações do Instituto de Tecnologia da UFPA (PPGITEC), durante o I Workshop da Cátedra Fulbright “Biodiversidade e Transformações Florestais diante das Mudanças Globais: Ferramentas, Modelos e Cenários”.
A assinatura do Memorando foi promovida durante uma sessão institucional aberta ao público. O encontro presencial foi dedicado ao tema “Fortalecendo a Colaboração Científica Brasil-EUA”, para um debate entre comunidade acadêmica, gestores públicos, imprensa e sociedade civil sobre o papel da ciência geoespacial e da cooperação internacional na governança ambiental da Amazônia.
“A realização deste evento em nossa universidade representa um passo importante principalmente na promoção de pesquisas conjuntas, ou seja, na produção de publicações, artigos científicos assinados por autores daqui e dos Estados Unidos, o que consideramos ações basilares de internacionalização”, lembrou a professora Iracilda Sampaio, pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPA.

“É importante frisar que a UFPA é um grande centro de referência de pesquisa sobre a Amazônia, conhecendo de perto a sua realidade, seu percurso histórico, seus desafios e complexidades. Nada melhor do que ampliar a sua perspectiva colaborativa em um processo intenso de internacionalização, como é o caso deste evento, no qual recebemos quatro pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o que fortalece essa parceria interinstitucional”, destacou a vice-reitora da UFPA, Loiane Prado Verbicaro.
Cátedra Fulbright – Para a pró-reitora de Relações Internacionais da UFPA, Lise Tupiassu, a realização de eventos para a ampliação de cooperações científicas é estratégica. “Inaugurar a Cátedra Fulbright-Cisam, com a realização deste workshop, é motivo de grande satisfação para a Universidade Federal do Pará. Sediar eventos dentro da nossa instituição, que tragam parceiros internacionais, é uma estratégia de internacionalização importante, na qual podemos mostrar nossa realidade. Oportunizamos, assim, que a ciência seja construída de dentro para fora e que a nossa comunidade possa dialogar com pesquisadores e alunos de outros países”, salientou.
De acordo com o professor Leandro Juen, coordenador do Cisam, “a aproximação entre a UFPA e a Universidade de Michigan cria novas oportunidades para a realização de pesquisas colaborativas, a formação de pesquisadores, o intercâmbio acadêmico e o desenvolvimento de ferramentas que auxiliem a compreender melhor os efeitos das mudanças globais sobre a biodiversidade e os ecossistemas amazônicos”.

Relevância do Workshop – Durante a programação do primeiro Workshop “Biodiversidade e Transformações Florestais diante das Mudanças Globais: Ferramentas, Modelos e Cenários”, a professora Ândrea Ribeiro dos Santos, pesquisadora do Centro Integrado da Sociobiodiversidade Amazônica (Cisam/UFPA) e coordenadora do Laboratório de Genética Humana e Médica da Universidade Federal do Pará (LGHM/UFPA), lembrou a importância das pesquisas científicas para explicar as mudanças que estão no dia a dia da sociedade.
“Toda ação do ser humano, em qualquer lugar do planeta, vai gerar repercussões na saúde. Diversos fatores, seja o aumento da temperatura, seja a diminuição da pluviosidade, do regime de chuvas, irão incidir na perda da biodiversidade e, logo, na saúde das pessoas. De que forma? Ocasionando a atração de insetos, artrópodes como gafanhotos, aranhas, centopeias e escorpiões, para zonas de transição entre o espaço urbano e o rural (zonas periurbanas), e mesmo para áreas urbanas, levando ao adoecimento das populações das cidades. Isso tudo envolve um ciclo muito dinâmico que precisa ser quebrado, remetendo à importância das pesquisas científicas que podem explicar quais foram as mudanças que levaram ao adoecimento de determinados indivíduos”, detalhou.

Açaí e mudanças climáticas – Dados da Pesquisa “Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS 2024)”, divulgada em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que o valor de produção de açaí no Brasil chegou a R$1,023 bilhão em 2024, o que representa um crescimento de 19,9% em relação a 2023. Em 2024, pela primeira vez, o fruto representou mais da metade do valor global dos produtos alimentícios do país, crescendo de 46% para 50,9% do total produzido, sendo um destaque no cenário agroflorestal e econômico brasileiro.
“A cadeia produtiva do açaí aumentou muito nos últimos anos, daí a importância de buscar entender todo esse processo. Sabemos que a monocultura traz muitos efeitos ambientais, acentuando as mudanças climáticas. É por isso que precisamos compreender a importância da combinação entre o respeito à biodiversidade e a produção de alimentos. Essa percepção é fundamental, ou seja, é possível ter desenvolvimento sustentável e econômico ao mesmo tempo”, explica a pesquisadora da Universidade de Exeter (Inglaterra) Fernanda de Vasconcelos Barros.
Fernanda participa do evento a convite de uma colega da UFPA, que atua com ela em um projeto da Rede Vem Açaí (Funcionamento das Várzeas Estuarinas e o Manejo do Açaí). A rede investiga os impactos ecológicos e ambientais do manejo do açaí nas várzeas da Amazônia. “É uma oportunidade única de aproximação entre as duas universidades, para tentar entender, um pouco melhor, os ecossistemas amazônicos e como o manejo do açaí vem interferindo nas florestas nativas, e, além disso, como essa produção pode ser aliada à bioeconomia do fruto no estado do Pará”, reforça a pesquisadora da Universidade de Exeter.

Parcerias e pesquisa – Tanto as relações entre a perda de biodiversidade e a saúde, destacadas pela professora Ândrea Ribeiro dos Santos, quanto a relação entre o manejo do açaí e a bioeconomia, ressaltada por Fernanda de Vasconcelos Barros, foram destaques nos debates do evento. Ao longo de uma semana, a programação contou com aulas teóricas ministradas por pesquisadores da Universidade de Michigan e com exercícios práticos.
Uma das aulas foi ministrada pelo professor Thiago Gonçalves-Souza, que lembrou a importância da cooperação internacional para a reversão de uma lógica histórica: a de que a Amazônia é apenas uma fonte de dados para pesquisadores de fora. “Queremos unir o conhecimento local, que dispõe de dados substanciais em diferentes escalas de biodiversidade, aos nossos modelos tecnológicos para entender como podemos integrar essas duas frentes”, pontuou Thiago Gonçalves-Souza.
Até esta sexta-feira, 14 de agosto, a programação seguirá com a abordagem de temas como o uso de inteligência artificial, sensoriamento remoto, modelagem de ecossistemas e análise de pegada de carbono aplicados à gestão ambiental da região. O treinamento é ministrado por um corpo docente de pesquisadores da Universidade de Michigan, os professores e pesquisadores Thiago Gonçalves-Souza, Dimitrios Gounaridis, Kai Zhu e Ben Goldstein.



