Na tarde do dia 22 de abril de 2026, a Universidade Federal do Pará (UFPA) realizou a cerimônia de concessão de diploma de graduação post mortem do estudante Cezar Morais Leite, no auditório do Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ). O ato simbólico reconhece a trajetória interrompida do jovem, assassinado aos 19 anos, em 10 de março de 1980, dentro de uma sala de aula do campus Guamá, durante o período da ditadura militar no Brasil.
A concessão, que foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) por meio da Resolução nº 6.009/2026, integra um conjunto de ações institucionais voltadas à memória, à verdade e à reparação histórica. O jovem discente cursava o curso de Bacharelado em Matemática quando foi morto por um agente da repressão infiltrado na Universidade, em um episódio que se tornou símbolo da violência política contra estudantes no período.




Durante a cerimônia, autoridades acadêmicas destacaram o caráter importante da homenagem. Para a pró-reitora de Ensino de Graduação, Maria Lucilena Gonzaga, a entrega do diploma representa um gesto necessário de reparação. “Nós estamos reconstruindo uma história dolorosa. Esta é uma tarde de reparação histórica que a universidade precisava fazer”, pontuou. “Talvez, se o Cezar estivesse aqui, ele poderia estar na condição de um docente, de um pró-reitor ou até mesmo de um reitor”.

A vice-reitora, Loiane Prado Verbicaro, ressaltou que a iniciativa reafirma valores fundamentais da instituição. “Essa reparação confirma o compromisso da Universidade com a afirmação e defesa incontestável dos direitos humanos, do pensamento crítico, da dignidade da pessoa humana, da liberdade e da democracia. Estes são valores estruturantes e fundamentais da nossa instituição”, afirmou. “Viva Cezar Leite e viva uma Universidade que reconhece seus equívocos e repara a memória e a justiça democrática”, declarou a vice-reitora, reforçando o papel das universidades como espaços de resistência e produção de pensamento crítico, especialmente diante de contextos autoritários.
Representando a família, a irmã do estudante, Sandra Helena Morais Leite, emocionou o público ao relembrar a trajetória e os impactos da perda. “O mano saiu de casa para assistir aula e nunca mais voltou”, disse às lágrimas.

“Eram nove horas da manhã e lá estava eu no Pronto Socorro Municipal diante da maca de meu irmão. Não havia médico plantonista, não havia ninguém para me acolher, ninguém para me falar nada. Então, quando minha mãe chegou, eu tive que dar a notícia da morte do mano para ela”, relembrou.
Em seu depoimento, Sandra destacou não apenas a violência do assassinato, mas também os anos de sofrimento enfrentados pela família, marcados por silenciamentos, medo e dificuldades na busca por justiça. “Essa travessia do luto é um corredor muito difícil e muito árduo. Nossa mãe me incumbiu de trazer aqui o agradecimento por manter viva a memória do mano, mas, sobretudo, a juventude de hoje precisa compreender o que é uma ditadura. Não foi acidente; foi a ditadura que estava dentro das universidades”, declarou.

Democracia e responsabilidade histórica – Ao encerrar os pronunciamentos, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, destacou o significado político e social da homenagem, defendendo a importância da preservação da memória. “Ter a capacidade de dialogar e cuidar da memória é uma tarefa fundamental. É preciso lembrar para que a gente não repita”, explicou. “Este momento é muito importante para dizermos que a disputa, inclusive do conceito de democracia, é permanente, pois não há uma democracia perene. O nosso desafio é construir uma lógica que não permita que ditadores ganhem esse discurso”, defendeu o reitor.
Mais que um ato simbólico e da homenagem individual, Gilmar reforçou o caráter democrático da cerimônia. “Este não é um gesto para promover ninguém, mas para dialogar com a sociedade sobre os riscos do autoritarismo e a importância da democracia”, alertou.
Ao final da cerimônia, Sandra Helena Morais Leite recebeu o diploma simbólico em nome do irmão. A entrega representou a conclusão simbólica da trajetória acadêmica de Cezar Morais Leite.
