A Universidade Federal do Pará (UFPA) esteve em Bristol (Reino Unido) durante a reunião de balanço do projeto SHINE (Sustainable, Holistic, and Inclusive Energy Systems for Well-being), uma rede internacional de pesquisa voltada ao desenvolvimento de sistemas energéticos sustentáveis com foco no bem-estar humano. Financiado com mais de £3,5 milhões pela UK Research and Innovation (UKRI), o projeto reúne pesquisadores da UFPA, da University of Bristol (Universidade de Bristol), além de instituições da Gâmbia, da Gana, do Nepal e da África do Sul, com atuação direta em comunidades do Sul Global.
Entre as iniciativas de cooperação técnico-científica existentes entre a UFPA e a Universidade de Bristol, destaca-se a parceria desenvolvida por intermédio do Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas (GEDAE/Itec), voltada principalmente à partilha de conhecimentos.
“Mesmo antes da concepção do projeto SHINE, já havia uma cooperação consolidada entre o GEDAE/UFPA e a Universidade de Bristol na execução de projetos de pesquisa. Fomos chamados para a rede devido à experiência do GEDAE no desenvolvimento de soluções energéticas renováveis para populações que vivem em áreas remotas e isoladas da rede elétrica convencional”, explica o professor Wilson Negrão, representante do GEDAE/UFPA.
Conexão Sul-Sul – As primeiras intervenções do projeto serão em quatro comunidades da África Ocidental, três em Gana e uma na Gâmbia, onde a vulnerabilidade energética é corriqueira. Os dois países também compartilham desafios energéticos com a Amazônia Brasileira. “Tanto nas comunidades ganesas e gambianas como nas amazônicas há a dependência crítica de combustíveis fósseis. A queima de lenha e carvão em fogões, por exemplo, emite fumaça tóxica no ambiente doméstico, causando problemas de saúde, e os motores das rabetas e barcos utilizados pelos habitantes locais dependem da gasolina e do diesel. O custo é altíssimo, o suprimento é instável e o risco de desabastecimento em períodos de maré desfavorável ou crise de insumos trava a rotina das famílias”, acrescenta o pesquisador.

Com mais de 30 anos de atividades, o GEDAE participa da iniciativa trazendo sua experiência com sistemas fotovoltaicos, microrredes em corrente contínua, embarcações elétricas de pequeno porte, e soluções adaptadas à realidade de populações em áreas remotas, especialmente na região amazônica. A ideia é utilizar essa experiência para promover uma aliança técnico-científica entre os países do sul global.
Bem-estar humano, o medidor de sucesso – Segundo Wilson Negrão, um dos objetivos do projeto “é elaborar uma estrutura metodológica (“well-being framework”) composta por diretrizes, práticas, indicadores e ferramentas reutilizáveis para apoiar outros pesquisadores, responsáveis pela implementação de projetos, formuladores de políticas públicas e comunidades na concepção de sistemas energéticos que promovam bem-estar, equidade e sustentabilidade”.
Enquanto o planejamento energético convencional costuma medir sucesso apenas por indicadores técnicos e quantitativos (megawatts instalados, número de domicílios conectados, custo por kWh, etc), um “well-being framework” propõe medidores que considerem as melhorias efetivas e observáveis na vida das pessoas impactadas. Dispensar o fogão à lenha e adotar tecnologias de cozimento elétrico, por exemplo, garante mais tempo livre para os membros da comunidade? A saúde das pessoas tem melhorado com a diminuição da poluição no ar? As novas fontes de eletricidade estão permitindo que os jovens estudem à noite? A autonomia das mulheres tem sido fortalecida? No “well-being framework”, perguntas relativas ao bem-estar são as protagonistas. Graças a essa abordagem, o projeto toca, simultaneamente, em pelo menos três dos dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS): saúde, igualdade de gênero e ação climática.

Reunião em Bristol – Realizada entre 29 de junho e 03 de julho de 2026, a segunda reunião presencial da rede foi marcada por várias apresentações técnicas e dinâmicas colaborativas entre as instituições parceiras. O foco, desta vez, foi na apresentação dos resultados já alcançados, no compartilhamento das atividades em andamento e nos direcionamentos para os próximos 18 meses do SHINE. A próxima grande reunião presencial prevista é a de conclusão do programa, a ser realizada em Gâmbia ao término do projeto, em 2027.

