A Universidade Federal do Pará (UFPA) participou, entre os dias 12 e 14 de maio de 2026, do Bioeconomy Amazon Summit, realizado na Estação das Docas, em Belém. A instituição esteve presente com três estandes da Superintendência de Inovação e Desenvolvimento (SINd), da própria UFPA e da unidade no norte da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII). Os espaços reuniram laboratórios organizados para atender as diferentes etapas da pesquisa, do controle de qualidade e desenvolvimento tecnológico, visando iniciativas voltadas à inovação e apresentando projetos que conectam conhecimento científico, sustentabilidade e desenvolvimento regional.
Aberto ao público, o evento recebeu pesquisadores, empresas, empreendedores e visitantes interessados nas potencialidades da nova economia da floresta. Nesse contexto, a presença da Universidade evidenciou o papel da ciência amazônica na construção de soluções inovadoras com sustentabilidade, que transformam a biodiversidade regional em produtos com maior valor agregado, fortalecendo, assim, as cadeias produtivas estratégicas da Amazônia, em diálogo direto com a sociedade e o mercado.

A participação da Universidade refletiu a atuação transversal da bioeconomia em diferentes áreas do conhecimento. Segundo o superintendente de Inovação e Desenvolvimento da UFPA, Filipe Saraiva, esse campo está presente em múltiplas frentes dentro da instituição. “A bioeconomia é transversal na UFPA, presente em áreas como Biologia, Engenharias, Ciências Agrárias e também nas Humanidades”, pontuou.
O superintendente destacou ainda que a Universidade atua desde o desenvolvimento de novos produtos até o apoio técnico a produtores e comunidades, além da análise de impactos de cadeias produtivas. Para o gestor, a participação em eventos como o Bioeconomy Amazon Summit amplia o alcance dessas iniciativas. “Participar dessas feiras é fundamental para aproximar a universidade de produtores e pequenas empresas interessadas em desenvolver negócios na bioeconomia”, explicou.
Ciência aplicada – Nos estandes, visitantes puderam conhecer de perto pesquisas desenvolvidas dentro da Universidade. Entre elas, projetos ligados ao Laboratório de Biossoluções e Bioplásticos da Amazônia (LABA), apresentados pela estudante de Engenharia Química, Kauanne Duarte. “Estamos apresentando projetos desenvolvidos por bolsistas de três laboratórios que integram o LABA, com foco em bioplásticos, sabonetes e cosméticos produzidos a partir de compostos e bioativos da Amazônia”, comentou.
A proposta dos estudos dialoga diretamente com a valorização dos recursos naturais da região e com práticas sustentáveis de produção. “Nós utilizamos bioativos da Amazônia para valorizar a economia local e incorporar esses insumos em produtos sustentáveis”, declarou a estudante. Além da dimensão tecnológica, os projetos também incorporam saberes tradicionais da região. “Muito do que a gente faz vem de conhecimentos que já existiam. A andiroba, por exemplo, é usada há muitos anos como anti-inflamatório, e hoje a gente incorpora isso na pesquisa científica”, concluiu.
Pesquisa, mercado e valorização regional – A articulação entre pesquisa acadêmica e aplicação prática também foi destacada por estudantes de pós-graduação, como Ingrid Cabral dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPGCEM) e bolsista do Laboratório de Biomateriais, Bioprodutos e Tecnologias de Biofabricação (LABBIO).
“A gente tem um foco muito grande em transformar a pesquisa científica em produto. Ainda não conseguimos levar ao mercado, mas esse é o objetivo”, esclareceu. A jovem ainda ressaltou que, apesar do potencial da região, ainda há desafios para consolidar iniciativas locais no mercado. “Muitos produtos com insumos amazônicos são vendidos por outros países ou regiões, mas esse retorno não vem para o Norte. A gente quer mudar isso”, disse Ingrid, que avalia que a presença da UFPA na feira contribuiu para dar visibilidade à produção científica local e fortalecer a conexão com o setor produtivo.

Inovação, parcerias e desenvolvimento – Outro destaque da participação da UFPA foi a atuação do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), vinculado à unidade EMBRAPII. Segundo a expositora Gracy Rocha, o espaço reúne diferentes laboratórios e iniciativas voltadas à inovação tecnológica.
“O CVACBA reúne dez laboratórios e conta com um projeto piloto que funciona como uma mini empresa, voltada para o aprimoramento de processos produtivos com menos desperdício”, apontou. Gracy explicou que a estrutura permite a aproximação direta com empresas interessadas em desenvolver soluções inovadoras. “As empresas entram com cerca de 10% do valor do projeto, enquanto o restante é financiado pela Embrapii, com apoio da universidade em estrutura, pesquisa e equipamentos”, afirmou.
Para Gracy, esse modelo também impacta diretamente a formação dos estudantes. “Esse contato com a prática faz com que os alunos saiam mais qualificados e com uma visão mais clara de atuação profissional.”
Bioeconomia, sustentabilidade e impacto social – A atuação da Universidade na área também envolve uma perspectiva estratégica de desenvolvimento sustentável. Para o professor e diretor da unidade EMBRAPII da UFPA, Hervé Rogez, a bioeconomia precisa estar associada à sustentabilidade e ao impacto social. “Com a EMBRAPII, conseguimos multiplicar em até dez vezes o investimento de pequenas empresas, transformando ideias e sonhos em soluções reais na bioeconomia”, garantiu.
Entre os exemplos citados, estão projetos que transformam resíduos em novos produtos e soluções tecnológicas, como o aproveitamento do mel de cacau e o desenvolvimento de sistemas de rastreabilidade para o caroço de açaí. Para o pesquisador, o conceito de bioeconomia na Amazônia não pode ser dissociado das populações locais. “Não existe bioeconomia sem o ‘socio’. A sociobioeconomia é a realidade, a economia é a consequência.”

